sábado, 13 de junho de 2020

Regência - Resumo de Gramática

REGÊNCIA
A regência trata das relações de dependência que as palavras mantêm entre si. É o modo pelo qual um termo rege outro que lhe completa o sentido.
Temos:
■ Termo regente ou subordinante: aquele que pede um complemento.
■ Termo regido ou subordinado: aquele que completa o sentido de outro.
O homem está apto para o trabalho — o nome apto não possui sentido completo, precisa de um complemento; o termo para o trabalho aparece completando o sentido do nome apto.
Assistimos ao filme — o verbo assistimos não tem sentido completo, ele necessita de um outro termo que lhe dê completude; o termo ao filme está completando o sentido do verbo assistir.
Os termos apto e assistimos são os subordinantes ou regentes, pois exigem complemento; já os termos para o trabalho e ao filme são os subordinados ou regidos, pois funcionam como complemento.
A regência divide-se em:
■ Regência nominal — quando o termo regente é um nome (substantivo, adjetivo ou advérbio):
O homem está apto para o trabalho.
■ Regência verbal — quando o termo regente é um verbo nocional, seja ele transitivo ou intransitivo, e indica ação:
Assistimos ao filme.
Os complementos colocados na frase receberão nomes específicos:
■ Complemento nominal, quando completa o sentido de um nome e vem sempre introduzido por preposição.
■ Complemento verbal, quando completa o sentido do verbo e pode ser ou não introduzido por preposição; nesse caso teremos de renomeá-lo como:
■ Objeto direto: é complemento diretamente ligado ao verbo, sem o auxílio de preposição, exceto nos casos de objeto direto preposicionado.
■ Objeto indireto: é o complemento indiretamente ligado ao verbo, com o auxílio de uma preposição.
■ 4.4.1. Regência nominal
É o fato de um nome não ter sentido completo e exigir outro que lhe complete o sentido. Não há regras para o uso ou não de determinada preposição com o nome. Alguns deles admitem mais de uma regência. A escolha de uma ou outra preposição deve ser feita com base na clareza, na eufonia e também deve adequar-se às diferentes formas de pensamento.
Curiosidade: Lista de alguns nomes e suas preposições mais frequentes:
aberto a, para
aborrecido a, com, de, por
abrigado a
abundante de, em
adequado a
afável com, para com
aflito com, por
agradável a
alérgico a
alheio a, de
aliado a, com
alusão a
amoroso com, para com
ansioso de, por
antipatia a, contra, por
apaixonado por
apto a, para atenção a
atencioso com, para com
aversão a, para, por
avesso a
ávido de, por
certeza de
certo de
compaixão de, para com, por
compatível com
comum a, de, em, entre, para
conforme a, com
consulta a
constituído com, de, por
contente com, de, em, por
contíguo a
convicção de
cruel com, para, para com
curioso de, por
desgostoso com, de
desprezo a, de, por
devoção a, para com, por
devoto a, de
domiciliado a, em
dúvida acerca de, de, em, sobre
empenho de, em, por
fácil a, de, para
falho de, em
favorável a
feliz com, de, em, por
fértil de, em
hábil em
habituado a, com
horror a
hostil a, para com
impróprio para
imune a, de
incansável em
incapaz de, para
inclinado a
invasão de
junto a, com, de
lento em
morador de, em
ódio a, contra, de, para com, por
orgulhoso de, com
peculiar a
precedido a, com, de
preferível a
pródigo de, em
próximo a, de
residente em
respeito a, com, de, para com, por
simpatia a, para com, por
situado a, em, entre
suspeito a, de
último a, de, em
união a, com, entre
útil a, para
vizinho a, com, de

Alguns advérbios terminados em mente exigem a mesma preposição dos adjetivos de que derivam:

relativo a - relativamente a
diferente de - diferentemente de
■ 4.4.2. Regência verbal
Nesse tipo de regência, é o verbo que pede um complemento que pode ou não ligar-se através de preposição. A escolha da preposição adequada depende da significação do verbo. Devemos observar as possibilidades de utilização de uma ou outra preposição.
a) Existem verbos que admitem mais de uma regência sem mudar de sentido:
Cumpriremos o nosso dever.
Cumpriremos com o nosso dever.
José não tarda a chegar.
José não tarda em chegar.
Esforcei-me por não contrariá-la.
Esforcei-me para não contrariá-la.
b) Existem verbos que mudam de sentido quando se altera a regência:
Aspirei o aroma das flores.
(aspirar = sorver, respirar)
Aspirei a um bom cargo.
(aspirar = desejar, almejar, objetivar)
Olhe para ele.
(olhar = fixar o olhar)
Olhe por ele.
(olhar = cuidar)
Lista de alguns verbos e suas regências:
Veremos aqui alguns verbos e suas regências, cujas particularidades seguirão o
seguinte esquema:
VERBO
■ (sentido na frase) — sua transitividade (VI, VTD, VTI, VTDI) — preposição exigida e exemplo
Assim:
CONFIAR
■ (acreditar) — VTI — preposição EM:
Confio em meus pais.
■ (entregar) — VTDI — sem preposição + preposição A:
Confio meu carro ao meu filho.
ASPIRAR
■ (respirar) — VTD — sem preposição:
Aspiro o perfume das flores.
Todos aspiramos a fumaça tóxica das fábricas de nossa cidade.
■ (desejar) — VTI — preposição A - não admite o pronome LHE, apenas a ele(s), a ela(s):
Aspiro a uma boa posição.
Ele sempre aspirou à vaga de Auditor-Fiscal.
ABDICAR
■ (renunciar) — VI — sem complemento:
Ela abdicou em 1990.
■ (renunciar) — VTD — sem preposição:
Ele abdicou a coroa.
Ele abdicou o direito de votar.
■ (renunciar) — VTI — preposição DE:
Ele abdicou da coroa.
Ele abdicou do direito de votar.
AGRADAR
■ (satisfazer) — VTI — preposição A:
A peça não agradou ao público.
Agradaria muito ao pai se o filho estudasse mais.
■ (acariciar) — VTD — sem preposição:
João procurou agradar o filho.
As pessoas gentis sempre procuram agradar os outros.
AGRADECER
■ (ser grato) — VTDI — sem preposição + preposição A:
João agradeceu o presente a José.
Agradecemos ao mestre a dedicação com que nos ajudou.
ASSISTIR
■ (ver) — VTI — preposição A - não admite o pronome LHE:
Ele assistiu ao espetáculo.
Sempre assisto às novelas.
■ (pertencer) — VTI — preposição A - admite o pronome LHE:
Férias é um direito que assiste a todos.
Tal direito assiste aos alunos.
■ (morar) — VI — preposição EM (adjunto adverbial de lugar):
Eles assistem em São Paulo.
Assistem todos em área de risco.
■ (ajudar) — VTD — sem preposição:
O médico assiste o paciente.
O departamento jurídico assistiu a Comissão de Direitos Humanos.
ATENDER
■ (receber, responder) — VTD — sem preposição:
O diretor atenderá os alunos.
Deus atende nossas preces.
■ (dar atenção) — VTI — preposição A:
Vou atender ao que me pede.
O bom aluno atende ao professor.

O gramático Celso Pedro Luft diz que, se o complemento for pessoa e se for representado por um substantivo, é indiferente o uso do objeto direto ou do objeto indireto: o vendedor atendeu o/ao cliente. Mas, se o complemento for representado por um pronome pessoal, só se usa o objeto direto: o vendedor atendeu-o (e não atendeu-lhe).
AVISAR
■ (informar) — VTDI — sem preposição + preposições A, DE ou SOBRE:
Avise o ocorrido a João.
Avisei João do ocorrido.
Avisei João sobre o ocorrido.
Curiosidade: Esse verbo pode ter a “pessoa” como Objeto Direto e a “coisa” como Objeto Indireto — ou vice-versa. Se você puser preposição na “coisa”, use DE ou SOBRE, e, se você puser preposição na pessoa, use A. Não se devem usar dois objetos diretos ou dois indiretos, o verbo só pode ser VTD, VTI ou VTDI, nunca VTDD ou VTII.
CERTIFICAR
Ver o verbo avisar.
CHAMAR
■ (convocar, apelidar) — VTD — sem preposição:
O gerente chamou os funcionários para a reunião.
Na hora de aflição, o filho chama a mãe.

Observação: Segundo o gramático Cegalla, quando o verbo chamar significa invocar, é transitivo indireto regendo a preposição por. Exemplo: Na missa, os fiéis chamavam pelo seu santo.
Curiosidade: Apesar de a regência dada acima ser a mais frequente, o verbo chamar admite várias construções como corretas:
Chamei Pedro.
Chamei a Pedro.
Chamei Pedro de herói.
Chamei a Pedro de herói.
Chamei por Pedro.
Na hora de aflição, o filho chama pela mãe.
CHEGAR
■ (vir de) — VI — preposição A (adjunto adverbial de lugar):
Cheguei a casa.
Cheguei ao colégio.
Chegaremos à escola um pouco atrasados.
■ (vir por meio de) — VI — preposição EM (adjunto adverbial de meio):
Cheguei em um ônibus fretado.
Cheguei no trem das onze.
COMUNICAR
■ (avisar) — VTDI — sem preposição + preposição A:
Comuniquei o fato a Pedro.
Comunicamos a todos que a prova será adiada.
Curiosidade: Para o verbo comunicar, teremos sempre a seguinte construção: “coisa” — sem preposição + “pessoa” — com a preposição A.
Comuniquei o fato a Pedro.
Apesar de ser sinônimo do verbo avisar, o verbo comunicar não pode fazer a troca de preposição entre complementos como faz aquele, a menos que você queira inventar novas regras para a gramática:
Avisei o fato a Pedro.
ou
Avisei Pedro do (sobre o) fato. (a última construção surgiu por associação com 'falar sobre (ou a respeito de), em que o termo seguinte é adjunto adverbial de assunto e não objeto indireto)
CUSTAR
■ (ser difícil) — VTI — preposição A:
Custa-me entender a lição.
Fazer o trabalho custará a todos.
Curiosidade: Na linguagem do dia a dia, e até na literatura moderna, costuma-se empregar esse verbo de forma incorreta. Veja a seguinte construção: Eu custei a entender — ERRADA. 
Nela percebemos o pronome eu como sujeito e o verbo no infinitivo a entender como objeto indireto. Isso é incorreto, pois o difícil foi entender, e tal coisa foi difícil para alguém, no caso para mim. 
A frase correta é: Custou-me entender.
Ninguém custa, nós não somos produtos nem serviços.
■ (ter valor) — VI
Imóveis custam caro.
Nesse sentido, só poderia ser usado para pessoas na época da escravidão, em que os negros vindos da África eram vendidos.
DESOBEDECER
■ (desacatar) — VTI — preposição A:
Os filhos desobedecem aos pais.
Sempre que desobedecem à lei, devem ser punidos.
Curiosidade:
Embora seja transitivo indireto, admite voz passiva, porque antigamente era transitivo direto.
ESQUECER
■ (sem pronome reflexivo) — VTD — sem preposição:
Esqueci o caderno.
Não esqueça os sapatos na sala.
■ (com pronome reflexivo) — VTI — preposição DE:
Esqueci-me do caderno.
Não se esqueça dos sapatos na sala.
Curiosidades:
a) Repare que o verbo esquecer pode ser usado com ou sem pronome reflexivo. Se estiver com pronome reflexivo, ele estará também com preposição DE. Se ele não estiver com pronome reflexivo, ele estará sem preposição. Essa mesma construção se aplica aos verbos lembrar e recordar.
b) Tome cuidado, pois algumas vezes ele aparece com pronome, mas esse não é reflexivo. Observe o seguinte exemplo:
Esqueceram-me os fatos.
Esta é uma construção comumente usada, na qual o sujeito é determinado e o pronome me representa o objeto indireto, logo os fatos é o sujeito. 
É correta, mas comum em Portugal e rara no Brasil.
Esqueceu-me a data do seu aniversário.
IMPLICAR
■ (ter implicância) — VTI — preposição COM:
Ana sempre implica com todos.
Implicava comigo, sempre que eu chegava tarde.
■ (envolver-se) — VTDI — preposição EM:
Ana implicou-se em casos de vandalismo.
■ (acarretar) — VTD — sem preposição:
Sua atitude implica demissão.
Desobedecer à lei implica receber punição.
■ (acarretar) — VTI — preposição EM:
Sua atitude implica em demissão.
Desobedecer à lei implica em receber punição.
Curiosidade: Hodiernamente, o verbo implicar, no sentido de acarretar, pode ser usado das duas maneiras mencionadas acima, por influência do verbo resultar, que é transitivo indireto, regendo a preposição em.
INFORMAR
Ver o verbo avisar.
INVESTIR
■ (empossar) — VTDI — sem preposição + preposição EM:
João foi investido em cargo público.
Vamos investir os aprovados na carreira militar.
■ (empregar dinheiro) — VTDI — sem preposição + preposição EM:
João investiu todo o seu dinheiro em ações.
O pai investiu no filho suas esperanças.
■ (atacar) — VTD — sem preposição:
A onda investe a praia.
■ (atacar) — VTI — preposição COM ou CONTRA:
A onda investe contra a praia.
Pedro investiu com os árabes.
Pedro investiu contra os árabes.
IR
■ (ir e voltar) — VI — preposição A (adjunto adverbial de lugar):
Fui ao colégio.
Ontem pela manhã, fui ao zoológico.
Vá à praia, para caminhar um pouco.
■ (ir e ficar) — VI — preposição PARA (adjunto adverbial de lugar):
Vou para o Rio de Janeiro.
Não quero mais morar na cidade, vou para a praia.
LEMBRAR
■ (lembrar “algo” “a alguém”) — VTDI — sem preposição + preposição A:
Lembrei o fato ao menino.
Lembrou ao pai que era dia de receber a mesada.
Curiosidade: O verbo lembrar também pode ter as mesmas regências do verbo esquecer:
Lembrei o fato.
Lembrei-me do fato.
Lembram-me tais palavras.
Não me lembra o ocorrido.
MORAR
■ (residir) — VI — preposição EM (adjunto adverbial de lugar):
Eu moro na Rua do Lago.
NAMORAR
■ (“ficar”) — VTD — sem preposição:
Eu namoro o Pedro e João namora a Maria.
Estou namorando aquela menina.
Curiosidade: Não se deve usar o verbo namorar com a preposição com, como muito frequentemente se ouve, por influência dos verbos casar e noivar.
São erradas as construções:
Eu namorei com ele durante dois anos.
Quer namorar comigo?
Com qual menina você namora?
O correto é:
Eu namorei-o durante dois anos.
Quer namorar-me?
Qual menina você namora?
NOTIFICAR
Ver o verbo avisar.
OBEDECER
Ver o verbo desobedecer.
PAGAR
■ (pagar “coisa”) — VTD — sem preposição:
Eu paguei a dívida.
Paguei o débito.
■ (pagar “pessoa” física ou jurídica) — VTI — preposição A:
Eu paguei ao médico.
Paguei ao açougueiro.
Curiosidades:
1) É possível colocarmos os dois complementos numa mesma frase, então o verbo pagar deve ser classificado como VTDI:
Paguei a conta ao açougueiro.
2) Às vezes usamos um substantivo que representa “coisa” no lugar de “pessoa”:
Paguei ao hospital. (“hospital” no lugar de “médico”).
Paguei ao açougue. (“açougue” no lugar de “açougueiro”).
PERDOAR
Ver o verbo pagar.
PISAR
■ (pôr os pés em) — VTD — sem preposição:
O artista pisou o palco com vontade!
Não pise a grama.
■ (pôr os pés em) — VTI — preposição EM:
O artista pisou no palco com vontade!
Não pise na grama.
Curiosidade: Antigamente, apenas a primeira construção era admitida como correta; hoje, ambas o são.
PREFERIR
■ (gostar mais) — VTD — sem preposição:
Prefiro água.
Todos preferem Português!
■ (desejar algo em detrimento de outra coisa) — VTDI — sem preposição + preposição A:
Prefiro água a café.
Todos preferem Português a Matemática.
Curiosidade: Muitos usam as seguintes construções:
Prefiro mais tomar uma cerveja. (Errada!)
Prefiro água do que café. (Errada!)
Prefiro antes água a refrigerante. (Errada!)
O verbo preferir significa gostar mais, portanto não se usa ao lado dele a locução conjuntiva DO QUE e advérbios de intensidade, como MAIS, MIL VEZES, MUITO MAIS.
Isso se justifica por associação com o verbo gostar usado em comparações.
PREVENIR
Ver o verbo avisar.
PROCEDER
■ (ter fundamento, comportar-se) — VI — sem complemento:
Tal comentário não procede.
Esse argumento não procede.
Você procedeu corretamente.
■ (originar-se) — VI — preposição DE (adjunto adverbial de lugar):
Eu procedo do Paraná.
Eles procedem de uma região fria.
■ (iniciar) — VTI — preposição A:
Eles procederam a uma rápida leitura da ata da reunião passada.
O delegado procedeu ao inquérito.
Após a chegada do réu, o juiz procedeu ao julgamento.
PUXAR
■ (arrastar) — VTD — sem preposição:
Ele puxou a cadeira e sentou-se.
Não puxe a porta.
■ (ser parecido) — VTI — preposição A:
Ele puxou ao pai.
QUERER
■ (desejar) — VTD — sem preposição:
Eu quero o sorvete de morango.
A mulher quer um filho.
■ (amar) — VTI — preposição A:
Eu quero a meus primos.
A mãe quer ao filho.
RESIDIR
Ver o verbo morar.
RESPONDER
■ (dar como resposta) — VTD — sem preposição:
Todos responderam a verdade.
A noiva respondeu um sonoro “sim”.
■ (dar resposta a) — VTI — preposição A:
Responda aos testes sobre Geografia.
Responda somente às questões mais simples primeiramente.
Curiosidade: Podemos também classificá-lo como VTDI:
Respondi a João que não fiz a lição.
SIMPATIZAR
■ (gostar, ter afeição) — VTI — preposição COM:
Eu simpatizei com o novo professor.
Ela não simpatizou comigo!
Curiosidade: Este verbo não é pronominal; portanto, essa construção não existe no português formal:
Eu não me simpatizei com ele.
O correto é:
Eu não simpatizei com ele.
VISAR
■ (mirar) — VTD — sem preposição:
O atirador visou o alvo.
■ (dar visto) — VTD — sem preposição:
Ele visou o documento.
■ (ter em vista) — VTI — preposição A, não admite o pronome LHE:
Ele visa a um bom salário.
Visávamos à garantia de uma boa classificação no concurso.
Este acordo visa a garantir um bom relacionamento entre as nações.
Curiosidade: Se o complemento do verbo visar (no sentido de “desejar”) for outro verbo no infinitivo, a preposição pode ser suprimida. Se o complemento for um substantivo, a preposição é obrigatória:
Este acordo visa a garantir um bom relacionamento entre as nações.
Este acordo visa garantir um bom relacionamento entre as nações.
Visando a receber um bom salário, ele se inscreveu para aquele cargo.
Visando receber um bom salário, ele se inscreveu para aquele cargo.
■ 4.4.3. Particularidades da regência
A estrutura oracional da Língua Portuguesa permite que se altere a posição dos termos dentro da frase e também autoriza a utilização de um ou outro termo para que se evite a redundância, a repetição.
Quando utilizamos esses processos facultados pela língua, devemos ter o cuidado de não trocar a regência dos termos (o que é muito comum nas conversas do dia a dia).
Veja este exemplo:
O que você mais gosta em mim? (ERRADO)
Essa frase está errada!
O pronome interrogativo QUE está no lugar do complemento do verbo gostar. O verbo gostar pede a preposição DE antes do seu complemento; portanto, deve aparecer essa preposição antes do pronome interrogativo QUE.
A frase correta é:
Do que você mais gosta em mim?
Esse foi apenas um exemplo; vejamos agora os vários fatos notáveis dentro da regência.
■ 4.4.3.1. Um único complemento para dois ou mais verbos
Comi e saboreei a fruta.
O objeto direto a fruta se liga tanto ao verbo comer quanto ao verbo saborear, e a frase está correta.
Comi e gostei da fruta. (ERRADO)
Perceba que o objeto indireto da fruta se liga tanto ao verbo comer quanto ao verbo gostar, e a frase está errada!
No primeiro exemplo, tanto o verbo comer quanto o verbo saborear são verbos transitivos diretos, ou seja, têm a mesma regência.
REGRA: verbos de regências idênticas (ambos transitivos diretos ou ambos transitivos indiretos) podem ter complemento único comum.
Observe agora os verbos do segundo exemplo: comer é VTD, gostar é VTI, ou seja, são verbos de regências diferentes.
REGRA: verbos de regências diferentes pedem complementos distintos.
A correção será: Comi a fruta e gostei dela.
Leia estes outros exemplos:
Entrei e sai da sala. (Errado!)
Entrei na sala e dela sai.
Li e refleti sobre o texto. (Errado!)
Li o texto e refleti sobre ele.
Amo e obedeço meu pai. (Errado!)
Amo meu pai e obedeço-lhe.
Ana gosta e confia em Raí. (Errado!)
Ana gosta de Raí e confia nele.
■ 4.4.3.2. Regência com pronome interrogativo
Que, qual, quem, quanto e onde são pronomes interrogativos.
Há dois modelos de frase interrogativa:
■ direta: quando a frase termina em ponto de interrogação.
Que horas são agora?
■ indireta: quando a frase termina em ponto-final, mas dá ideia de pergunta.
Gostaria de saber que horas são.
Os pronomes interrogativos substituem os complementos verbais ou nominais, portanto estão sujeitos à regência como qualquer outro termo nessa função.
REGRA: se o pronome interrogativo é usado com um verbo ou nome que peça preposição, essa preposição deve ser colocada antes desse pronome interrogativo.
Qual perfume você falou? (errado!)
De qual perfume você falou?
Veja outros exemplos incorretos do dia a dia e suas correções:
O que o senhor, ao concorrer a uma vaga, aspira? (errado!)
A que o senhor, ao concorrer a uma vaga, aspira?
Que filme você assistiu ontem? (errado!)
A que filme você assistiu ontem?
Quanto você precisa para ir à feira? (errado!)
De quanto você precisa para ir à feira?
Onde você foi ontem? (errado!)
Aonde você foi ontem?
■ 4.4.3.3. Regência com pronome relativo
Que, qual, quem, onde e cujo são pronomes relativos — substituem termo mencionado anteriormente. Veja:
Ela é a mulher. + Eu amo a mulher. = Ela é a mulher que eu amo.
a) QUE — substitui nomes de pessoas, animais e coisas:
Ana é a secretária que eu contratei.
Cachorro é o animal que eu lhe darei.
Comprei a camisa que você me pediu.
b) QUAL — substitui nomes de pessoas, animais e coisas. Esse pronome sempre é usado com artigo antecedente (o qual, a qual, os quais, as quais):
Ana é a secretária da qual eu te falei.
Cachorro é o animal do qual gosto.
Comprei as camisas das quais você falou.
c) Quem — substitui nomes de pessoas:
Todos são pessoas em quem confio.
d) Onde — substitui nomes de localidades (lugar real ou virtual):
Aquela é a casa onde moro.
Visitei a cidade onde nasci.
e) Cujo — substitui nomes de pessoas, animais e coisas desde que expressem ideia de posse. Esse pronome sempre concorda com o substantivo posterior a ele. Não pode haver artigo depois dele, estes devem se unir ao pronome.
Esta é a fazenda cujo pasto secou.
Conheço o homem cujas filhas estão na tevê.
Curiosidades:
1) Depois do pronome cujo só pode aparecer substantivo, nunca um pronome, verbo ou advérbio.
Estão erradas as frases:
Ela é a mulher cuja ninguém conhece.
Ela é a mulher cuja não devemos desobedecer.
Ela é a mulher cuja jamais deixarei de amar.
Ela é a mulher cuja ela odeia.
2) Pode aparecer um adjetivo antes do substantivo:
Esta é a fazenda cujo enorme pasto secou.
Conheço o homem cujas belas filhas estão na tevê.
Os pronomes relativos substituem termos que podem funcionar como complementos verbais (objeto direto, objeto indireto) ou como complementos nominais. Sendo assim, eles acatarão a qualquer particularidade regencial dos complementos que substituem.
REGRA: se o pronome relativo é usado com verbo ou nome que peça preposição, essa preposição deve ser colocada antes do pronome relativo.
Eu não conheço a marca de margarina que você gosta. (errado)
Não conheço a marca de margarina de que você gosta.
Repare: o verbo gostar pede a preposição DE, que aparece antes do pronome relativo, pois este é o seu complemento.
■ 4.4.3.4. Regência com pronome pessoal do caso oblíquo átono
a) Pronome oblíquo como objetos diretos e indiretos
Os complementos verbais podem ser substituídos por pronomes pessoais do caso oblíquo.
Os pronomes ME, TE, SE, NOS e VOS serão classificados como objeto direto ou objeto indireto, de acordo com a regência do verbo a que se ligam. Assim:
Ela me procurou.
ME — objeto direto, pois o verbo procurar pede um complemento sem preposição. 
Ela me obedeceu.
ME — objeto indireto, pois o verbo obedecer pede um complemento com preposição.
O pronome SE funciona como objeto direto ou indireto, mas é usado na voz reflexiva.
Os pronomes O, OS, A, AS, LHE, LHES têm usos específicos, por se referirem todos à 3ª pessoa. Veja:
O, A, OS, AS — são sempre objeto direto, ou seja, só podem substituir complementos verbais sem preposição. 
Comi as frutas. = Comi-as.
Observei o paciente. = Observei-o.
Não vi as meninas hoje. = Não as vi hoje.
LHE, LHES — são sempre objeto indireto, ou seja, só podem substituir complementos verbais com preposição. Só acompanham verbos transitivos diretos para indicar posse.
Ela obedece aos pais. = Ela lhes obedece.
Nós agradecemos a Pedro o jantar. = Nós lhe agradecemos o jantar.
Mandei flores para a Radegondes. = Mandei-lhe flores.
Curiosidade: LHE/LHES só substituem objetos indiretos iniciados pelas preposições A ou PARA.
Gosto da Maria.
Gosto-lhe. (errado!)
Gosto dela.
Simpatizei com o novo professor.
Simpatizei-lhe. (errado!)
Simpatizei com ele.
Eu acreditei na simpática garota do balcão de informações.
Eu acreditei-lhe. (errado!)
Eu acreditei nela.
Atenção: Os verbos
ASSISTIR (no sentido de ver)
ASPIRAR (no sentido de almejar)
VISAR (no sentido de ter em vista)
OBEDECER (quando se refere a uma coisa)
não admitem o LHE/LHES como complemento. Neste caso, o substantivo em questão deve ser substituído pelas formas tônicas a ele, a ela, a eles, a elas.
Assisti ao filme. — Assisti a ele.
Aspirei ao cargo. — Aspirei a ele.
Visei ao cargo. — Visei a ele.
Obedeci à lei. — Obedeci a ela.

Os verbos assistir (no sentido de pertencer) e obedecer (em referência a pessoa) admitem o lhe/lhes como complemento.

Reclamar é um direito que assiste ao consumidor. - Reclamar é um direito que lhe assiste.
Obedeci ao diretor. - Obedeci-lhe.
Há uma construção clássica, embora existente na Língua Portuguesa que permite a substituição de dois complementos verbais diferentes ao mesmo tempo:
Eu entreguei o presente ao menino.
o presente — objeto direto = o
ao menino — objeto indireto = lhe
Eu lho entreguei. (lhe + o)
Ela trouxe água para mim.
água — objeto direto = a
para mim — objeto indireto = me
Ela trouxe-ma. (me + a)
Dou os cadernos para ti.
os cadernos — objeto direto = os
para ti — objeto indireto = te
Dou-tos. (te + os)
b) Pronome oblíquo como complemento nominal
Os pronomes oblíquos átonos podem ser usados como complementos nominais. Para tanto, basta que nós os coloquemos como substitutos de termos preposicionados que se ligam a nomes.
Seu conselho foi útil para o menino.
Seu conselho foi-lhe útil.
O termo para o menino completa o sentido do nome útil, portanto é um complemento nominal e, se o pronome lhe o substitui, terá a mesma classificação.
O passeio ser-nos-á agradável. (O passeio será agradável para nós.)
c) Pronome oblíquo como adjunto adnominal
Os pronomes oblíquos podem funcionar como pronomes possessivos; nesse caso não representam complementos (nem verbais nem nominais); serão — portanto — adjuntos adnominais.
Pisou-me o pé e não pediu desculpa.
(pisou o meu pé) — me (indicando posse) é adjunto adnominal, e não objeto indireto.
O bandido levou-nos o carro.
(levou o nosso carro) — nos (indicando posse) é adjunto adnominal, e não objeto indireto.
O sol queimava-lhe a pele.
(o sol queimava a pele dele / a sua pele) — lhe (indicando posse) é adjunto adnominal, e não objeto indireto, nem mesmo um objeto direto preposicionado.
■ 4.4.3.5. Verbos que pedem dois complementos
Os verbos que pedem dois complementos (VTDI) devem sempre apresentar um complemento sem preposição e outro com preposição. Caso isso não aconteça, a frase estará incorreta.
O pai autorizou aos filhos a irem ao cinema. (errado)
O pai autorizou os filhos a irem ao cinema.
os filhos — objeto direto
a irem ao cinema — objeto indireto
OU
O pai autorizou aos filhos irem ao cinema.
aos filhos — objeto indireto
irem ao cinema — objeto direto
Informei-os que sairia mais cedo. (errado)
Informei-os de que sairia mais cedo.
os — objeto direto
de que sairia mais cedo — objeto indireto
OU
Informei-lhes que sairia mais cedo.
lhes — objeto indireto
que sairia mais cedo — objeto direto
■ 4.4.4. Sujeito e regência
O sujeito, em Língua Portuguesa, jamais poderá estar preposicionado, só se você inventar novas regras para a gramática.
Já era hora dela chegar. (errado!)
Já era hora de ela chegar.
Perceba que o pronome ela é sujeito do verbo chegar; se unimos a preposição DE ao pronome, teremos um sujeito preposicionado, daí o erro.
Ela saiu apesar do pai pedir que não saísse. (errado!)
Ela saiu apesar de o pai pedir que não saísse.
Antes da dor bater, tome logo uma aspirina. (errado!)
Antes de a dor bater, tome logo uma aspirina.

Os pronomes oblíquos átonos: me, te, se, nos, vos, o, a, os, as, podem funcionar como sujeito de verbos no infinitivo ou gerúndio, com verbos causativos (deixar, mandar e fazer) e sensitivos (ver, ouvir e sentir).
 
Regência de algumas expressões:
estar em greve - e não 'estar de greve'
entrega em domicílio - e não 'entrega a domicílio'
repetir o ano - e não 'repetir de ano'
passar o ano - e não 'passar de ano'
entrar como sócio - e não 'entrar de sócio'
dar entrada ao processo - e não 'dar entrada no processo'
ficar para recuperação - e não 'ficar de recuperação'
 
Casos facultativos:
estar de férias / estar em férias
estar em pé / estar de pé

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