quarta-feira, 2 de junho de 2021

Como falar corretamente

 Quem liga o rádio ou a tevê espera ouvir uma língua correta. Correta não significa rebuscada ou exibida. Significa apenas o elementar respeito a flexões, concordâncias, regências, pronúncias. Deslizes gramaticais não passam despercebidos. Ao contrário. Ecoam. Não use:  

a nível de – a forma é ao nível de (= à altura de): Recife fica ao nível do mar.


adéquo – adequar só se conjuga nas formas em que a sílaba tônica cai a partir do u: adequamos, adequais, adequou, adequava, adequara, adequará, adequaria, adequasse. (Na dúvida, substitua-o por adaptar. Isso nos lembra aquela história da reunião: se não sabe escrever 'sexta', marque para 'sábado', e a dos cheques: se não sabe escrever 'sessenta', faça dois cheques de 'trinta')


aidético – pessoa com HIV.


colocar uma questão – fazer uma observação, expor uma opinião.


correr atrás do prejuízo – compensar o prejuízo.


criar novas – só se cria o novo. Basta criar. Se for antigo, será recuperar, reconstruir, restaurar ou renovar.


de formas que – locuções conjuntivas se usam no singular: de forma que


de maneiras / modos / sortes que – idem: de maneira / modo / sorte que.


de menor – use menor de idade ou, se possível, diga a idade.


esteje – a forma é esteja.


estrear novo – só se estreia o novo. Basta estrear. Se for antigo, será reprise. 


extorquir alguém – extorquir é arrancar: extorquir dinheiro de alguém, extorquir informações de alguém. Se quiser usar uma pessoa como objeto, troque o verbo: coagir, ameaçar, constranger, forçar.


fazem dois anos – fazer, na contagem de tempo, é invariável. Só se conjuga na 3ª pessoa do singular: faz dois anos, fez cinco meses.


gratuito – gratuito e intuito se pronunciam como circuito. O ui forma ditongo, sem acento. Não é gratuíto nem intuíto.


houveram – no sentido de existir ou ocorrer, o verbo é impessoal. Só se conjuga na 3ª pessoa do singular: Houve distúrbios. Houve três acidentes.


intermedia – intermediar se conjuga como odiar: odeio (intermedeio), odeia (intermedeia), odiamos (intermediamos), odeiam (intermedeiam).


imprensa escrita, eletrônica, falada e televisionada – imprensa (em referência a jornais, revistas e outros impressos), mídia (em referência a rádio, televisão, internet e cinema).


interviu – intervir deriva de vir: ele veio, ele interveio.


inexorável – pronuncie o x como em exame.


leproso – doente de hanseníase.


medio – mediar se conjuga como odiar: odeio (medeio), odeia (medeia), odiamos (mediamos), odeiam (medeiam). O mesmo vale para ansiar, remediar, intermediar, incendiar e odiar. Não devem seguir esse modelo verbos como anunciar, copiar, denunciar, renunciar etc.


meio-dia e meio – meio-dia e meia (hora)


melhor idade – use idoso ou diga a idade: 65 anos, 80 anos, 100 anos.


mongol – síndrome de Down.


panorama geral – todo panorama é geral. Basta panorama. Uma visão pode ser específica.


pequeno detalhe – todo detalhe é pequeno. Basta detalhe.


precaviu-se, requis, proviu – precaver, prover e requerer seguem a conjugação de vender: ele vendeu, ele se precaveu, ele requereu, ele proveu.


plano para o futuro – todo plano é para o futuro. Basta plano. Uma lembrança ou retrospectiva pode ser do passado.


reaveu, reaviu, reaveio – reaver deriva de haver: ele houve, ele reouve.


ressarço, ressarce – ressarcir é verbo defectivo. Use: indenizo, indeniza.


se eu caber – se eu couber.


se eu deter – se eu detiver.


se eu pôr – se eu puser.


se eu trazer – se eu trouxer.


se eu ver – se eu vir.


seje – a forma é seja.


sintaxe – pronuncie o x como em próximo. 


subzídio – pronuncie o s como em subsolo.


tóxico – pronuncie o x como em táxi.


vítima fatal – vítima de acidente fatal. Fatal é o que mata: a queda: o acidente, o disparo, o veneno, o coronavírus. A pessoa não mata - morre. É vítima. Ou morto.


vou estar enviando & similares – vou enviar.  

10 mandamentos do leitor

 Mensagens nota 10. É dezembro. O mês dá passagem à escrita. Escrevemos cartões, e-mails, recadinhos. O importante é transmitir mensagens claras e sedutoras. Como chegar lá? Mantenha o olho no leitor e siga estes mandamentos.


 


Seja adequado. A língua se parece a imenso armário. Nele há todos os tipos de roupas. O desafio: escolher a mais adequada para o momento. A piscina pede biquíni, maiô, sunga. O baile de gala, longo e black-tie. O cinema, traje esporte. Trocar as vestes tem nome. É inadequação. O mesmo princípio orienta o texto. Não se trata de certo e errado, porque isso é coisa de ciência exata. Mas de adequado ou inadequado.

Montaigne, há 400 anos, disse que o estilo tem três virtudes. A primeira: clareza. A segunda: concisão. A terceira: correção gramatical. Graças a ela, o receptor entende a mensagem sem ambiguidades. Como ensina Íñigo Dominguez, “uma frase tem de estar construída de tal forma que não só se entenda bem, mas que não se possa entender de outra forma”.

A precisão tem íntima relação com as palavras. Buscar o vocábulo certo para o contexto é trabalho árduo. Exige atenção, paciência e pesquisa. Consultar dicionários deve fazer parte da rotina de quem escreve.

Imagine que o leitor esteja à sua frente conversando com você. Sinta-se à vontade. Faça pausas e perguntas diretas. Dê ao texto um toque humano. Você se dirige a pessoas reais, de carne e osso, não a personagens fictícios.

No mundo de corre-corre, queremos textos curtos, precisos e prazerosos. Rapidez de leitura fisga. Pra chegar lá, opte por palavras familiares. As longas e pomposas são pragas. Em épocas passadas, quando a língua era instrumento de exibição, elas gozavam de enorme prestígio. Falar difícil dava mostras de erudição. Impressionava. Hoje a realidade mudou. Impõe-se informar — rápido e bem. Só use termos científicos e literários na reprodução de falas ou em entrevistas. Em vez de hodierno, use atual, substitua data natalícia por aniversário, auscultar por sondar, localizar por encontrar.

Comece bem, com uma frase atraente, que desperte o interesse e estimule a vontade de avançar até o fim. Aí, ofereça o prêmio cuidadosamente escolhido: um fecho marcante. Lembre-se: a última impressão é a que fica.

Não canse. Escreva nem mais, nem menos – o suficiente. Busque a frase elegante, capaz de veicular com clareza e simplicidade a mensagem que você quer transmitir.          

Boa parte das pessoas se indigna com palavrões, obscenidades e expressões chulas. Evite-as. 

Surpresa chama a atenção e desperta a curiosidade. É o gosto pelo inusitado. O chavão vai de encontro à novidade. Soa como coisa velha. Transmite a impressão de pessoa preguiçosa, desatenta ou malformada. Em bom português: incapaz de surpreender.  

As palavras carregam carga ideológica. Algumas mais, outras menos. A sociedade está muito atenta aos vocábulos que reforçam preconceitos. Cor, raça, religião, idade, peso, altura, origem, condição social, de pessoa idosa e com deficiência são as principais vítimas.

Não exagere. A informação exige termos precisos, que não ofendem nem demonstram intolerância, racismo, discriminação ou preconceito. Use-os sem constrangimento. 

O radialista Airton Medeiros entrevistava ao vivo na Rádio Nacional a presidente de uma associação de cegos. Dizia que ela era cega. Lá pelo meio do programa, recebeu um papelzinho com a recomendação de que a tratasse como “deficiente visual”. Antes de obedecer à ordem, perguntou se devia tratá-la de cega ou deficiente visual. Ela aproximou as mãos do rosto dele até tocar os óculos. Então disse: “Deficiente visual é sua gramática, que está desatualizada. Eu sou cega”.

1. Alto, baixo, gordo, magro, grande, pequeno são relativos. Alguém pode ser alto pra uns e baixo pra outros. Diga a altura, o peso, o tamanho: 1,95m, 50kg, 300kg.

2. Negro é raça. Nessa acepção, use-o sem pensar duas vezes. Pelé é negro. Não é escurinho, crioulo, negrinho, moreno, negrão ou de cor.

2.1. Evite o adjetivo negro em expressões de conotação negativa. Em vez de nuvens negras, prefira nuvens pretas ou escuras. Em lugar de lista negra, dê nome aos bois: lista de maus pagadores, lista de alunos relapsos, lista de sonegadores.

2.2. Apague denegrir de seu dicionário. Prefira comprometer. Elimine também judiar (da família de judeu). Substitua-o por maltratar.

2.3. Quer indicar cor? O preto está às ordens.

3. Paraíba, e cabeça-chata? Não. Identifique o estado de origem com precisão (paraibano, pernambucano, cearense). Se quiser generalizar, use o adjetivo indicador da região: nordestino, nortista, sulista, e use baiano só se a pessoa realmente nasceu na Bahia.

4. Bicha, veado, sapatão? Xô! Fique com homossexual, gay, lésbica, LGBT.

Diga

chinês, coreano, japonês (não: japa, china, amarelo)

idoso (não: velho, decrépito, gagá, pé na cova, vovô, titio)

pobre, pessoa de baixa renda (não: pobretão, pé de chinelo, ralé, mulambento, raia miúda, escória, povão, zé-povinho, populacho, povaréu)

pessoa com deficiência (não: portador de deficiência, pessoa especial, pessoa com necessidades especiais, incapacitado, deficiente, inválido, aleijado, retardado)

religioso (não: papa-hóstia, igrejeiro, carola, beato, barata de igreja)

travesti (não: traveco)

Mas não exagere. Cabeleireiro é cabeleireiro, não hair stylist. Costureira é costureira, não estilista de moda (outra especialidade). Manicure é manicure, não esteticista de unhas. Empregada doméstica é empregada doméstica, não diarista (outra especialidade). Dona de casa é dona de casa, não especialista em prendas domésticas. Cego é cego, mudo é mudo, surdo é surdo, surdo-mudo é surdo-mudo. Pessoa com deficiência nem sempre tem a precisão desses termos. Quando necessário, use-os sem constrangimento.

Não use crente, indique a que religião a pessoa pertence.

Estilo - seja informal

 Pequenos truques de linguagem contribuem para o clima de cumplicidade. Além de palavras simples e concretas, frases curtas e fáceis, faça perguntas diretas. Nenhuma conversa é unilateral. Pergunte sempre que houver oportunidade. Use:

afastar, raptar ou arrebatar, não abduzir

azedume, não acrimônia

unido ou ligado, não adstrito

agressivo ou guerreiro, não belicoso

enganoso, não capcioso

engraçado ou divertido, não chistoso

aliança ou coligação, não coalizão

ameaçar, não cominar

associação ou conciliação, não consociação

resultado, consequência ou conclusão, não corolário

discordar, não discrepar

perfume ou aroma, não eflúvio

hipótese ou consideração, não elucubração

enganar, não engodar

prefácio, não exórdio

esconderijo, não homizio

característica, particularidade ou estrutura, não idiossincrasia

ardente ou inflamado, não ígneo

influência, não influição

espécie, tipo ou qualidade, não jaez

tagarela ou falador, não loquaz

mediador, não mediatário

vergonha ou ofensa, não opróbrio

oscular, não beijar

dinheiro, patrimônio ou economia, não pecúlio

esbanjador ou gastador, não perdulário

pretensioso, esnobe ou afetado, não pernóstico

região ou país, não plaga

adiar ou prorrogar, não procrastinar

princípios, não prolegômenos

fantasia ou ilusão, não quimera

avermelhado, não rubicundo

hesitar, não tergiversar

nacionalismo ou patriotismo, não ufanismo

eventualidade, não vicissitudes

injúria ou ultraje, não vitupério

Prefira palavras curtas e simples

 Entre dois vocábulos, fique com o mais curto. Entre dois curtos, o mais simples. Entre dois simples, o mais expressivo. Fuja dos literários e científicos, deixe para quem adora empolação.

Voltar, regressar ou retornar? Voltar. Pretender, objetivar, intentar ou tencionar? Pretender. Entrar ou ingressar? Entrar. Votar ou sufragar? Votar. Tribunal, corte, pretório ou colegiado? Tribunal. Eleição ou pleito? Eleição. Supremo Tribunal Federal, pretório excelso, corte suprema ou doutíssimo colegiado? Supremo Tribunal Federal. Ou simplesmente: Supremo ou STF. Advogado, causídico, patrono ou defensor? Advogado. Recurso ou inconformação? Recurso. Resposta ou contestação? Resposta. Réu, demandante, demandado, postulante ou peticionário? Réu. Juiz, julgador ou órgão decisório? Juiz. Contracheque ou holerite? Contracheque. Ou então: demonstrativo de pagamento. Concurso ou certame? Concurso.

Substantivos e verbos - escrita enxuta

 Substantivos e verbos são a roupa e o sapato da frase. As demais classes gramaticais, os acessórios. Escreva com a convicção de que no idioma só existem nomes e verbos. Adjetivos, advérbios, pronomes, conjunções, aumentativos, diminutivos, superlativos & cia. devem ser usados com cuidado e parcimônia. “Nos grandes mestres”, ensinou Monteiro Lobato, “o adjetivo é escasso e sóbrio — vai abundando progressivamente à medida que descemos a escala de valores”.


Ordem direta - a melhor

 Por que ordem direta? Na leitura rápida, a memória funciona a curto prazo. É como quando alguém diz a placa do carro, o documento, o endereço ou o número do telefone. Para não esquecê-los, temos duas saídas — repeti-los muitas vezes, ou anotá-los. Mais: a cabeça retém melhor o que vem primeiro. Daí a importância da ordem direta. Na frente, o mais significativo. Atrás, o secundário. Sujeito + verbo + complemento / predicativo + adjunto adverbial (+ conjunção) é a fórmula. Mais natural, evita frases sem sentido, ambiguidades, intercalações e inversões, repetições, pleonasmos, palavras e expressões desnecessárias:


 Neymar fez o teatro do cai-cai nas partidas de que participou na Copa da Rússia.


A ideia substantiva — o teatro do cai-cai — abre o enunciado. É ela que ficará retida na memória. O complemento tem importância secundária. Se algum detalhe se perder, não comprometerá o recado.


Compare:


 Nas partidas de que participou na Copa da Rússia,  Neymar fez o teatro do cai-cai.


A informação mais importante perdeu-se na rabeira da frase. Azar do leitor.

Redação - 15 lembretes

 Um grupo de estudantes visitou o blogue. Conversamos sobre redação. Eles, que vão fazer o Enem, pediram 15 dicas pra lá de importantes. Visitante não pede. Manda. Eis 15 lembretes:


1. Redigir é habilidade como nadar, digitar, jogar futebol, vôlei ou games. Exige treino. Treine. Escreva muito e sempre.


2. Escreva sobre qualquer coisa — novela, futebol, religião, eleições.


3. O hábito de redigir se conquista com garra e perseverança.


4. Escreva livremente. Corrija depois.


5. Vá logo ao ponto. Não encha linguiça.


 6. Comece com uma frase atraente que estimule a vontade de avançar até o fim. Termine com um fecho marcante. A última impressão é a que fica.


7. O dicionário é o reino das palavras. Consulte-o.


8. Erros gramaticais comprometem a imagem e roubam pontos.


9. Dê ao texto um toque humano. Você se dirige a pessoas de carne e osso. Fuja das personificações. 


10. Prefira palavras curtas e simples e fuja das literárias e científicas. Simplicidade impressiona mais que erudição forçada. 

Evite: conspícuo, defeso, injunção, escopo, mitigado, prolixo, simulacro, óbice, reputado, precípuo, adstrito, lacônico, espúrio, escorreito, permuta, perscrutar, inferir, epíteto.

Prefira: notável, proibido, imposição, objetivo, reduzido, extenso, imitação, empecilho, conceituado, principal, dependente, resumido, errado, correto, troca, procurar, concluir, apelido.


 11. Vírgula? Ponto e vírgula? Na dúvida, use ponto. 


  12.Frases curtas são fáceis de entender e você acerta na pontuação, concordância, colocação pronominal, crase, ortografia, acentuação, conjunções e correlação verbal.


   13. Seja natural. Imagine que o leitor esteja à sua frente batendo papo.


   14. Surpreenda. Fuja dos clichês, do internetês, das mesóclises, do ponto de exclamação, das reticências, dos parênteses, dos estrangeirismos, das siglas desconhecidas, dos regionalismos, das gírias, dos preciosismos, da linguagem técnica, da voz passiva, do gerundismo, dos neologismos, das rimas e dos ecos como o diabo foge da cruz.


   15. Não queira ser um escritor genial. Eles são eles, você é você.

Indecente ou indescente?

 Segundo as regras ortográficas da língua portuguesa, a palavra correta é indecente, sem o uso da letra s antes da letra c. A grafia indesce...