quarta-feira, 2 de junho de 2021

10 mandamentos do leitor

 Mensagens nota 10. É dezembro. O mês dá passagem à escrita. Escrevemos cartões, e-mails, recadinhos. O importante é transmitir mensagens claras e sedutoras. Como chegar lá? Mantenha o olho no leitor e siga estes mandamentos.


 


Seja adequado. A língua se parece a imenso armário. Nele há todos os tipos de roupas. O desafio: escolher a mais adequada para o momento. A piscina pede biquíni, maiô, sunga. O baile de gala, longo e black-tie. O cinema, traje esporte. Trocar as vestes tem nome. É inadequação. O mesmo princípio orienta o texto. Não se trata de certo e errado, porque isso é coisa de ciência exata. Mas de adequado ou inadequado.

Montaigne, há 400 anos, disse que o estilo tem três virtudes. A primeira: clareza. A segunda: concisão. A terceira: correção gramatical. Graças a ela, o receptor entende a mensagem sem ambiguidades. Como ensina Íñigo Dominguez, “uma frase tem de estar construída de tal forma que não só se entenda bem, mas que não se possa entender de outra forma”.

A precisão tem íntima relação com as palavras. Buscar o vocábulo certo para o contexto é trabalho árduo. Exige atenção, paciência e pesquisa. Consultar dicionários deve fazer parte da rotina de quem escreve.

Imagine que o leitor esteja à sua frente conversando com você. Sinta-se à vontade. Faça pausas e perguntas diretas. Dê ao texto um toque humano. Você se dirige a pessoas reais, de carne e osso, não a personagens fictícios.

No mundo de corre-corre, queremos textos curtos, precisos e prazerosos. Rapidez de leitura fisga. Pra chegar lá, opte por palavras familiares. As longas e pomposas são pragas. Em épocas passadas, quando a língua era instrumento de exibição, elas gozavam de enorme prestígio. Falar difícil dava mostras de erudição. Impressionava. Hoje a realidade mudou. Impõe-se informar — rápido e bem. Só use termos científicos e literários na reprodução de falas ou em entrevistas. Em vez de hodierno, use atual, substitua data natalícia por aniversário, auscultar por sondar, localizar por encontrar.

Comece bem, com uma frase atraente, que desperte o interesse e estimule a vontade de avançar até o fim. Aí, ofereça o prêmio cuidadosamente escolhido: um fecho marcante. Lembre-se: a última impressão é a que fica.

Não canse. Escreva nem mais, nem menos – o suficiente. Busque a frase elegante, capaz de veicular com clareza e simplicidade a mensagem que você quer transmitir.          

Boa parte das pessoas se indigna com palavrões, obscenidades e expressões chulas. Evite-as. 

Surpresa chama a atenção e desperta a curiosidade. É o gosto pelo inusitado. O chavão vai de encontro à novidade. Soa como coisa velha. Transmite a impressão de pessoa preguiçosa, desatenta ou malformada. Em bom português: incapaz de surpreender.  

As palavras carregam carga ideológica. Algumas mais, outras menos. A sociedade está muito atenta aos vocábulos que reforçam preconceitos. Cor, raça, religião, idade, peso, altura, origem, condição social, de pessoa idosa e com deficiência são as principais vítimas.

Não exagere. A informação exige termos precisos, que não ofendem nem demonstram intolerância, racismo, discriminação ou preconceito. Use-os sem constrangimento. 

O radialista Airton Medeiros entrevistava ao vivo na Rádio Nacional a presidente de uma associação de cegos. Dizia que ela era cega. Lá pelo meio do programa, recebeu um papelzinho com a recomendação de que a tratasse como “deficiente visual”. Antes de obedecer à ordem, perguntou se devia tratá-la de cega ou deficiente visual. Ela aproximou as mãos do rosto dele até tocar os óculos. Então disse: “Deficiente visual é sua gramática, que está desatualizada. Eu sou cega”.

1. Alto, baixo, gordo, magro, grande, pequeno são relativos. Alguém pode ser alto pra uns e baixo pra outros. Diga a altura, o peso, o tamanho: 1,95m, 50kg, 300kg.

2. Negro é raça. Nessa acepção, use-o sem pensar duas vezes. Pelé é negro. Não é escurinho, crioulo, negrinho, moreno, negrão ou de cor.

2.1. Evite o adjetivo negro em expressões de conotação negativa. Em vez de nuvens negras, prefira nuvens pretas ou escuras. Em lugar de lista negra, dê nome aos bois: lista de maus pagadores, lista de alunos relapsos, lista de sonegadores.

2.2. Apague denegrir de seu dicionário. Prefira comprometer. Elimine também judiar (da família de judeu). Substitua-o por maltratar.

2.3. Quer indicar cor? O preto está às ordens.

3. Paraíba, e cabeça-chata? Não. Identifique o estado de origem com precisão (paraibano, pernambucano, cearense). Se quiser generalizar, use o adjetivo indicador da região: nordestino, nortista, sulista, e use baiano só se a pessoa realmente nasceu na Bahia.

4. Bicha, veado, sapatão? Xô! Fique com homossexual, gay, lésbica, LGBT.

Diga

chinês, coreano, japonês (não: japa, china, amarelo)

idoso (não: velho, decrépito, gagá, pé na cova, vovô, titio)

pobre, pessoa de baixa renda (não: pobretão, pé de chinelo, ralé, mulambento, raia miúda, escória, povão, zé-povinho, populacho, povaréu)

pessoa com deficiência (não: portador de deficiência, pessoa especial, pessoa com necessidades especiais, incapacitado, deficiente, inválido, aleijado, retardado)

religioso (não: papa-hóstia, igrejeiro, carola, beato, barata de igreja)

travesti (não: traveco)

Mas não exagere. Cabeleireiro é cabeleireiro, não hair stylist. Costureira é costureira, não estilista de moda (outra especialidade). Manicure é manicure, não esteticista de unhas. Empregada doméstica é empregada doméstica, não diarista (outra especialidade). Dona de casa é dona de casa, não especialista em prendas domésticas. Cego é cego, mudo é mudo, surdo é surdo, surdo-mudo é surdo-mudo. Pessoa com deficiência nem sempre tem a precisão desses termos. Quando necessário, use-os sem constrangimento.

Não use crente, indique a que religião a pessoa pertence.

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