O dialeto baiano ou baianês[1] é um dialeto do português brasileiro, cujos falantes têm como região geográfica o estado da Bahia, além do sul de Sergipe, do extremo norte de Minas Gerais e do leste de Goiás e Tocantins.[2][3] Por vezes, é confundido com o dialeto nordestino central que é falado no norte da Bahia e em parte dos estados do nordeste.
O dialeto baiano é classificado como um dialeto brasileiro meridional (juntamente com o fluminense, o mineiro e o sertanejo) com características intermediárias entre os dois grupos[4], enquanto o Dialeto Nordestino, Recifense, Costa Norte e Nortista são classificados como setentrionais[5][6].
Foi um dos primeiros dialetos eminentemente brasileiros. Sua formação deu-se graças a influência de Salvador,[2] a primeira sede do Brasil Colônia, que abrigava a maioria das instituições administrativas do Brasil no período colonial, e por isto sempre sofreu influências de diversas ondas migratórias e contatos com diversos povos, desde europeus, até indígenas e africanos, sendo dialeto brasileiro regional com a maior influência destes últimos, sobretudo em relação ao léxico e à entonação. Com o passar dos anos ganhou identidade própria e acabou influenciando na formação de alguns outros do país, com exceção do nordestino que tem raiz no Recife.[2][7]
Atualmente é considerado um dialeto muito rico socioculturalmente,[8] mas estigmatizado,[8] principalmente pela mídia brasileira, que chega a ridicularizá-lo; em certas ocasiões.[8] Todavia, tal como ocorre em outros lugares, o dialeto baiano é um dos elementos centrais da identidade baiana e motivo de orgulho para muitos baianos.[9]
Tem como costume abreviar palavras e acabar criando outras com significado que pode ser até diferente do inicial. Oxe, que é uma abreviação de oxente, que também é uma abreviação de ô gente, perdeu significado original e hoje é utilizado para situações de não entendimento, espanto ou reprovação. Já opaió é uma abreviação de olhe para aí, olhe, a palavra olhe é comumente abreviada para ó ou ói e para é comumente abreviado para pá, juntando ó, pá, aí e ó, a palavra opaió surgiu.
Segue algumas palavras e expressões e o significado delas:[10]
Dialeto baiano Significado
Buzu Ônibus
Mainha Mãe
Painho Pai
Aonde Interjeição de negação, também pode ser utilizado no lugar de onde
Pão de Sal Pão francês
Comer água Ingerir bebida alcoólica
Grafite Lapiseira
Ponta de grafite Grafite
Lapiseira Apontador de lápis
Colé E ai? Como vai?
Aipim Mandioca, macaxeira
Passeio Calçada
Porreta Bom, excelente
Beiju Tapioca
Retado Depende do contexto, pode ser bravo ou muito bom
O alfabeto baiano também tem uma forma diferente de se pronunciar, letras como E, F, G, J, L, M, N, R, S se pronunciam respectivamente (de maneira informal): é, fê, guê, ji, lê, mê, nê, rê, si.[carece de fontes]
Índice
1 Fonética
1.1 Consoantes
1.1.1 Alofones consonantais
1.1.2 Outras particularidades fonéticas
1.2 Vogais [12]
2 Gramática
3 Referências
4 Ligações externas
Fonética
Consoantes
Ponto de articulação → Labial Coronal Dorsal Glotal
Bilabial Alveolar Palato-alveolar Palatal Velar
Modo de articulação ↓
Nasal m (m) n (n) ɲ (n)
Oclusiva p (p) b (b) t (t) d (d) c (t) ɟ (d) k (c,q) ɡ (g) ʔ
(início de palavras iniciadas em vogal)
Fricativa s (c, ç, s, x) z (s, z) ʃ (ch, s, x, z) ʒ (g, j, s, x) h (r, rr) ɦ (r, rr)
Aproximante j (i semivocálico)
j̃ (nh, -m)
ɰ (u semivocálico)
w̃ (u, o, -m,-n)
Africada t͡s (tes, zz) d͡z (des) t͡ʃ (t, tch) d͡ʒ (d, dj)
Vibrante simples ɾ (r)
Aproximante lateral l (l) ʎ (l, lh)
Alofones consonantais
os alofones são fonemas que variam dentro de um mesmo dialeto e são percebidos de maneira equivalente pelos seus falantes. Entre os alofones presentes no dialeto baiano estão:
/t͡ʃ / e /c/ antes de /i/, como em "antigamente";
/t͡ʃis/, /t͡ʃɪs/, /t͡ʃs/ e /t͡s/ no fim de palavras como em “antes”;
/d͡ʒ/ e /ɟ/ antes de /i/, como em "dígito";
/d͡ʒis/, /d͡ʒɪs/, /d͡ʒz/ e /d͡z/ no fim de palavras como em “paredes’’;
/s/, /z/, /ʃ/ e /ʒ/ em final de palavras, como em "dias";
/s/ e /ʃ/ antes de consoantes surdas(c, f, k, p, q, s, t), como em "sexta";
/z/ e /ʒ/ antes de consoantes sonoras(g, v, b, z, d, m, n,l), como em “eslavo”;
/lj/ e /ʎ/ antes de /i/ ou /j/, como em "família";
/l/, /ʎ/ e /j/ como em “mulher”;
/n/ e /ɲ/ antes de /i/, como em "animal";
/ɲ/, /j̃/ e /j/ como em “manhã”;
/ʎ/ e /j/ sobretudo em variações das zonas rurais; como em “velho”;
/a/ e /ɐ/ em posição pré e pós-tônica, como em “amigo’’ e ‘‘nada’’;
/o/, /ɔ/, /ʊ/ e /u/ em posição pré-tônica, como em “colher”;
/u/ e /ʊ/ no fim da palavra, como em “casamento”;
/e/, /ɛ/, /ɪ/ e /i/ em posição pré-tônica, como em “pedinte”;
/e/ e /ɛ/ em posição pós-tônica,como em “caráter”;
/i/ e /ɪ/ no fim da palavra, como em “governante”;
em algumas formas do dialeto, como no catingueiro[11], o t antes de qualquer vogal possui alofonia com o /tʃ/, /t͡ʃj/ e o /c/ caso seja precedido de /j/, como na palavra muito, pronunciada muntcho; o mesmo fenômeno pode acontecer com o d, tornando-se em /dʒ/, /d͡ʒj/ ou /ɟ/ como na palavra cuidar, pronunciada cudjá.
Outras particularidades fonéticas
Em coda(fim de sílaba), o s sempre é pronunciado como se houvesse um /j/ antes de si: “médicas” /′mɛ.d͡ʒi.kajs/.
Em coda, o s é pronunciado com o som “chiado”(/ʃ/ ou /ʒ/) antes de consoantes dentais(/t/, /t͡ʃ/, /t͡s/, /d/, /d͡ʒ/, /d͡z/, /n/, /ɲ/) em todas as variações do dialeto, mas antes de outras consoantes ou sem consoantes depois de si, sua pronúncia pode variar de falante para falante: “estados” /eʃ.ʼta.dus/ ou /iʃ.ˈta.duʃ/;
É também comum omitir o s no fim das palavras como em vários outros dialetos: “vamos” /ʼva.mu/;
Em coda, as demais consoantes são quase sempre omitidas, pronunciadas como se houvesse um /i/ ou /e/ depois de si ou pronunciadas como vogais ou semivogais:
‘L’ ⇒ /w/: “jornal” ⇒ /ʒɔh.ʼnaw/;
‘M’ e ‘N’ ⇒ /w̃/, /j̃/ ou /(~)-/: “cantam” ⇒ /ʼkã.tãw̃/; “cantem” ⇒ /ʼkã.tẽj̃/;
‘R’ ⇒ /h/(se no meio da palavra) ou /(´)-/(se no final): “armar” ⇒ /ah.ʼma:/
As restantes são sempre pronunciadas como se possuíssem um ‘i’ ou um ‘ê’ depois delas: “advogado” ⇒ /a.d͡ʒi.vo.ʼga.du/ ou /a.de.vo.ʼga.du/; “internet” ⇒ /ĩ.tɛh.ʼnɛ.t͡ʃi/;
Hiatos geralmente são pronunciados como ditongos ou sofrem supressão até virarem vogais simples: ‘‘ruim’’ /hʊ̃j̃/; ‘‘série’’ /ʼsɛ.ɾɪ/;
O r em início de palavra e depois de consoante geralmente tem o som da fricativa glotal surda (/h/) mas pode ter o som da sua contraparte sonora (/ɦ/) e mais raramente o da fricativa uvular sonora(/ʁ/); já entre vogais(e muito incomumente em coda, talvez por influência do sotaque paulistano) o r tem sempre o som de tepe: “rara” /′ha.ɾa/;
Tal qual no dialeto cearense, é comum em certas variações do baianês(principalmente ao se falar muito rápido e com pessoas próximas) a substituição de /ʒ/, /v/ e /z/(este ultimo só em final de sílaba) por /h/ ou /ɦ/: “a gente” /a ’ɦẽ.t͡ʃɪ/;
A última vogal das palavras por vezes pode ser omitida, talvez por influência do dialeto mineiro: “gente” /ʒẽt͡ʃ/;
Os ditongos "ei" e "ou" não raramente sofrem monotongação quando ocorrem em sílabas tônicas e antes de /a/, /b/, /v/, /ʒ/ e /ɾ/, tornando-se respectivamente /e/ e /o/ (geralmente em palavras com mais de uma silaba): “teia” /ʼte.a/; roupa /ʼho.pɐ/;
Devido à influência dos sotaques africanos ser mais forte nesse dialeto, o ritmo da fala do baianês é bem mais silábico, demarcado e compassado que o das outras variações, além de possuir certos aspectos na entonação que lembram os tons, característicos de certas famílias linguísticas africanas;
Vogais [12]
/a/ (a);
/ɐ/ (a)
/e/ (e);
/ɛ/ (e);
/ɪ/ (i);
/i/ (e, i);
/o/ (o);
/ɔ/ (o);
/ʊ/ (o);
/u/ (o, u).
Obs.: cada uma dessas possui uma variante nasal.
Gramática
Algumas peculiaridades gramaticais do português falado na Bahia são: a omissão do artigo definido antes de possessivos (p. ex.:“minha mãe” em vez de “a minha mãe”) para evitar redundâncias e antes de antropônimos, nestes com a função implícita e instintiva de diferenciar objetos e coisas de pessoas e animais(quando referidos pelo próprio nome), poupando assim artigos que seriam desnecessários e demasiadamente forçados, não naturais, nem espontâneos de acordo com falantes dessa variação (p. ex.: "Maria foi à/na/pra feira" em vez de "A Maria foi à/na/pra feira").
Também são características desse dialeto o uso do pronome tu conjugado na terceira pessoa alternadamente com você, principalmente com pessoas com quem se tem intimidade(p. ex.:“tu é de mais.” ou “você é de mais.”; provavelmente por influência do sotaque carioca) e a inversão da colocação da partícula negativa (p. ex.: "Sei não." em vez de "Não sei.") e dos advérbios e pronomes interrogativos (p. ex.:“Você tá onde/aonde?” em vez de “Onde você está?”). Essa peculiaridade influenciou alguns dialetos do Nordeste.
O futuro do pretérito, o pretérito mais-que-perfeito e o futuro do presente dificilmente são usados, em seu lugar usa-se o pretérito imperfeito ou uma locução verbal formada pelo verbo auxiliar ir (p. ex.: “se eu pudesse, eu te ajudava.”,em vez de “se eu pudesse eu te ajudaria.”). Isso acontece porque esses tempos verbais são muito parecidos nos verbos da 2° e da 3° conjugação(regulares ou irregulares), com o pretérito imperfeito levando vantagem por ter duas letras a menos(exs.: ″comia″/″comeria″, ″agia″/″agiria″)
Além disso, em algumas variações, os adjetivos, numerais, artigos e pronomes (demonstrativos, indefinidos e possessivos) são sempre invariáveis em número(p. ex.:“As crianças sempre tão feliz”), para enfatizar que uma ação deve ser bem feita, usa-se o verbo no particípio + advérbio bem + e o mesmo verbo no particípio: fazer bem feito, explicar bem explicado, usam-se os verbos ir e chegar com a preposição a, e não em (vou no cartório, em vez de ao cartório, cheguei na praia, em vez de cheguei à praia), os verbos obedecer e desobedecer sem preposição (obedeço os pais, em vez de obedeço aos pais), o verbo implicar com a preposição em, quando significa produzir como consequência (dirigir sem carteira implica em multa), o pronome relativo e a conjunção integrante sem a preposição (é o médico que eu confio, o filme que eu gosto, o país que eu fui, a lei que eu concordo, tenho certeza que estacionei meu carro, tenho medo que será necessária nova cirurgia)
O dialeto fluminense (ouvir) é um dialeto do português brasileiro falado nos estados brasileiros do Rio de Janeiro e Espírito Santo e nas regiões limítrofes com os estados vizinhos.
Sua origem encontra-se em algumas regiões de colonização portuguesa, possivelmente mais acentuada após a chegada da corte ao Brasil em 1808. O dialeto apresenta traços em comum com o português europeu, em particular uma tendência eventual de reduzir as vogais /e/ e /o/ para /i/ e /u/ quando átonas, um ritmo acentual de fala (sílabas átonas de menor duração que as tônicas)[1] e palatalização da s e z em fim de sílaba (mesmos /meʒmuʃ/). Em contraste com o português europeu, esse fenômeno não ocorre antes de outra consoante fricativa alveolar (como em os senhores). Na área capixaba do dialeto, prefere-se o s sibilante (como no estado de Minas Gerais, no sul do estado da Bahia e na microrregião do Vale do Paraíba Fluminense, no sul do estado do Rio de Janeiro). Na Zona da Mata mineira, no Espírito Santo e na região do Vale do Paraíba Fluminense, no sul do Estado do RJ, o s é pronunciado sibilado em todas as ocasiões.
Em 1961, por meio de decreto do então presidente da república Jânio Quadros, conhecido por seus atos extravagantes, foi reconhecido como o único dialeto oficial do Brasil [carece de fontes].
Apresenta uma estrutura fonológica dificilmente encontrada em outras regiões, sendo algumas das características peculiares ao dialeto fluminense o r aspirado no final de sílaba e a abundância de ditongos e de fonemas palatais fricativos, em detrimento dos mamimagráfotológicos.
Apresenta também um vocabulário específico: 0800 (gratuito), aê (início de discurso ou variação do advérbio aí), boiola (gay), bolado (preocupado), beleza (aceitação, cumprimento ou exaltação), coé (incerteza ou início de frase), dar moral (pedir auxílio ou dar vantagem), irado (qualificação positiva), mermão (abreviação de meu irmão), mó (redução de maior), night (diversão noturna), parada (qualquer coisa que não se sabe), paraíba (qualquer nordestino), sinistro (depende do contexto, pode ser excelente, tenso ou difícil), vacilar (errar e decepcionar)
O dialeto da costa norte, por vezes também chamado de dialeto cearense por ser notoriamente descrito como o principal dialeto do estado do Ceará, é uma variante do português brasileiro falada no estado do Ceará e em partes do Piauí e do Maranhão. No Ceará, seu estado raiz, conta com aproximadamente 8,5 milhões de falantes.
Sua área geográfica abrange a maior parte do território cearense, incluindo as regiões Metropolitana de Fortaleza, Norte, Noroeste, Jaguaribana (excetuando-se a região da Serra do Pereiro, que assim como o Cariri fala o dialeto nordestino) e Sertões cearenses. Além do estado do Ceará, o dialeto também é falado nas regiões Centro-Norte e Norte piauienses (incluindo a capital Teresina, assim como na regiões Norte do Maranhão (incluindo a capital São Luís) e na maior parte das regiões Centro e Leste maranhenses (exceto Alto Mearim e Grajaú, Chapadas do Alto Itapecuru, Chapadas das Mangabeiras e Gerais de Balsas). [carece de fontes]
Possui variações internas, principalmente na Região Metropolitana de Fortaleza, na Região Jaguaribana, na Grande Teresina e nas áreas Norte, Central e Leste do Maranhão.
Índice
1 Características
1.1 Fonéticas
1.1.1 Vogais
1.1.2 Consoantes
1.1.3 Traços arcaizantes
1.2 Morfossintáticas
1.2.1 Pronomes de segunda pessoa
1.3 Lexicais
2 Referências
Características
Fonéticas
Existem diversos traços fonológicos característicos do dialeto da costa norte. Entre eles, podemos citar:
Vogais
Abertura das vogais pré-tônicas [e] e [o]: A abertura das vogais médias pré-tônicas [e] e [o] (que passam para [ɛ] e [ɔ]) é típica dos dialetos do Norte-Nordeste do Brasil, distinguindo-os nitidamente dos dialetos do Centro-Sul. No dialeto da costa norte, porém, esse fenômeno é de caracterização peculiar, estando relacionado a uma regra de harmonia vocálica de traço em que a vogal da sílaba pré-tônica se assimila à vogal da sílaba tônica posterior, além da neutralização e redução vocálicas, diferentemente do que ocorre no dialeto baiano e outros.[1][2] Assim, os cearenses pronunciam as vogais /e/ e /o/ abertas ou fechadas, nas sílabas pré-tônicas, conforme a vogal da sílaba tônica posterior induza sua abertura ou fechamento: por exemplo, tem-se "hotel" [ɔ'tɛw], mas "loteria" [lote'ɾiɐ], e "detesto" [dɛtɛʃtʊ], porém "pretexto" [pɾeteʃtʊ], o que não exclui as ocorrências de redução vocálica também presentes em outros dialetos do português, como em "desleixo" [dzlejʃʊ]. Ocorre também influência morfológica nos termos formados por derivação, o que faz com que vogais que, pela regra da harmonização vocálica, seriam abertas sejam realizadas de modo distinto em razão da influência do termo originário, a exemplo de "mesada" ([mezadɐ], não [mɛzadɐ]) e "cebolal" ([seboˈlaʊ], não [sebɔˈlaʊ]).[3]
Troca de [e] e [o] por [i]/[j] e [u]: Quando não ocorre a abertura da vogal pré-tônica [e] para [ɛ], acontecem trocas fonéticas de [e] para [i] (vogal) ou [j] (semivogal), fenômeno muito comum em palavras como "cearense" [sja'ɾẽsi] e "segunda" [si'gũdɐ], por exemplo. Menos comum é a substituição de [o] para [u], quando não se realiza a abertura dessa vogal pré-tônica para [ɔ], como em "botar" , podendo ser falada [bu'ta(h)] ou [bɔ'ta(h)].[carece de fontes]
Ditongação e monotongação: O dialeto da costa norte, assim como outros do português brasileiro, destaca-se por apresentar simultaneamente tendências de ditongação de vogais e monotongação de ditongos. Na fala cearense, é mais significativa a ditongação nas vogais de sílabas tônicas precedidas por /s/ ou /z/, como em "pés" [pɛjs] e "feroz" [fɛˈɾɔjs]. Por outro lado, é mais frequente a monotongação nos ditongos precedidos de [ʃ], [ʒ] e [ɾ] (especialmente se o vocábulo for polissilábico), a exemplo de "caixa" [kaʃɐ], "feijão" [feˈʒɐ̃ʊ̃] e "feira" [feɾɐ].[4]
Consoantes
Apagamento/ iotização de "lh" [ʎ] e "nh" [ɲ]: O "nh" e o "lh" são frequentemente iotizados em sílabas mediais e finais, juntamente com o apagamento da última vogal, geralmente [ʊ] ("tamanho" > [tɐ̃mɐ̃j̃] - "tamãe" - ou [tɐ̃mɐ̃j̃ʊ]; paninho > [pɐ̃'nĩ] ou [pɐ̃nĩʊ̃ ]; "filho" > [fij]; "velho" > ([vɛj]). Antes da vogal i, o "nh" é, em vez disso, apagado ("rainha" > [ha'ĩɐ]). Os casos em que esses fonemas não são apagados ou iotizados parecem ser influenciados pela presença de vogais abertas ([a] [ɛ] [ɔ]) posteriores a esses fonemas.[5]
Glotalização do "r": Assim como na maior parte do Nordeste, os cearenses tendem a usar a letra "r" de uma maneira bem forte ([ɦ]), o qual é dado o nome de "r" sonoro, em qualquer situação, até mesmo no dígrafo "rr", como em "carro" ['kaɦu], "verso" ['vɛɦsu] e "ramo" ['ɦɐmu], porém, iniciando sílabas e formando encontros consonantais se usa [ɾ], como em boa parte dos falantes da língua portuguesa: "grito" ['gɾitu] e "aranha" [a'ɾɐɲɐ]. Outra característica marcante de vários dialetos nordestinos, em particular o cearense, é o desuso do som da letra "r" em palavras que terminam com "r", ou seja, o "r" é comumente mudo no fim de palavras, como em "andar" [ɐ̃ 'da] e "caviar" [kavi'a].No entanto,assim como em outros dialetos brasileiros,é comum a sua pronúncia como [ɾ] quando precedendo uma palavra que se inicia com vogal.
Neutralização de [v], [ʒ] e [z]: Um fenômeno típico do falar cearense, muito usado em imitações humorísticas do dialeto, é a neutralização dos fonemas [v], [ʒ] e [z] como [ɦ], variante do fonema /r/ típico do Nordeste brasileiro, em várias situações, por exemplo: "estava" ([iʃ'tahɐ]); "mesmo" ([meɦmu] ou até ['meɦum]); e "gente" ([ɦẽt(ʃ)i]). De início, via-se esse fenômeno como típico da fala plebéia e rural, gerando estigmatização do falante. Mais tarde, segundo alguns autores, essa transformação passa a ser vista como ocorrendo principalmente na linguagem rápida e descontraída, para fins de facilitar a articulação, representando assim uma variante dialetal usada em situações de familiaridade e relaxamento. Outros, contudo, consideram que ela é causada principalmente por fatores lexicais e interacionais. Assim, as causas que influenciaram essa mudança seriam a natureza da consoante ou da vogal seguinte e a presença do morfema do pretérito imperfeito "ava".[6]
A letra s com três sons distintos: Antes das consoantes b, g, l, m e v, o som da letra s é de /z/. Antes das consoantes t, d e n, o som é palatizado /ʃ'/ e antes das demais consoantes o somo do s é de /s/, assim como no final das palavras.[7]
Palatalização dos grupos /di/ e /ti/: Preferencialmente, na Região Metropolitana de Fortaleza e microrregiões adjacentes (Noroeste Cearense, Sertão de Crateús e algumas cidades do Sertão Central e do Baixo Jaguaribe), assim como no norte do Piauí e no nordeste do Maranhão (e suas respectivas capitais, Teresina e São Luís) ocorre a presença de palatalização das consoantes alveolares /d/ e /t/, onde são realizadas africadas pós-alveolares surdas /tʃ/ e sonoras /dʒ/ antes do som da vogal /i/, mesmo nas sílabas "te" e "de", ficando os sons [tʃi] e [dʒi], assim como ocorre em boa parte do português brasileiro. Acredita-se que o fenômeno da palatalização, no estado do Ceará, deve-se à influência do dialeto nortista (pela proximidade regional). Porém, há algumas distinções fonéticas de região para região do estado com relação à presença ou não de palatalização das consoantes dentais e alveolares "d" e "t", particularmente com relação às microrregiões do Médio Jaguaribe e do Sertão de Senador Pompeu, além de algumas cidades fronteiriças com o estado do Rio Grande do Norte (como Limoeiro do Norte, Tabuleiro do Norte e Alto Santo), que assim como no português europeu e nas outras regiões do Nordeste brasileiro, que vão do Rio Grande do Norte a Alagoas, também por influência do dialeto nordestino dada a proximidade regional, o /t/ e /d/ podem ser dentais como ocorre no dialeto citado ou palatalizados antes do som de /i/.
Traços arcaizantes
No dialeto da costa norte, também é muito comum, nas variantes mais isoladas e rurais, aspectos arcaicos da pronúncia do português, registrados em textos lusitanos de séculos atrás, como o ditongo /uj/ que se reduziu a /u/ modernamente ("fruito" e não "fruto"), e termos e formas alternativas como "magotes", "dezasseis" (dezesseis), "mior" (melhor), "tratos" (negócio), "pro 'mode" e "pr'amode" (derivado de "por amor de"), etc.[3] De acordo com a lista de Florival Seraine, essas palavras podem ser resumidas em:
Áferese: acostumado > costumado [kuʃtumadʊ]
Síncope: "xícara" > xicra [ʃikrɐ]
Epêntese: "cotovia" > "cutruvia" [kutɾu'viɐ]
Hipérteses: "ceroula" > cilora [si'loɾɐ]
Apócope: "ridículo" > ridico [hi'd(ʒ)ikʊ]
Prótese: "juntar" > "ajuntar" [aʒũ'ta]
Dissimilação: "manhã" > "menhã" [mẽɲɐ̃]
Morfossintáticas
Pronomes de segunda pessoa
Os cearenses usam preferencialmente o pronome de segunda pessoa "tu", ao lado do pronome "você",em geral ambos com conjugação na terceira pessoa do singular.[8] O uso de um ou outro pronome está relacionado, no Ceará, ao nível de intimidade entre os interlocutores conjuntamente com a simetria ou assimetria do papel social exercido por eles, determinando o claramente o uso dos três pronomes de largo uso no dialeto: "tu", geralmente pronome indicador de familiariedade; "você", ora usado com um traço formal, ora íntimo, a depender da situação; e "o senhor", reservado não só a pessoas de status superior, mas também àqueles com quem não se tem qualquer tipo de intimidade. Ao contrário do que ocorre no Rio de Janeiro, por exemplo, há sempre uma concordância entre "tu" e "você" e suas formas oblíquas e possessivas, mesmo entre as pessoas de mais baixa escolaridade.
Lexicais
O dialeto cearense possui grande quantidade de palavras e expressões populares usadas largamente pela população e que lhe são peculiares, dando ensejo até mesmo à publicação de vários dicionários de cearês catalogando essas expressões. Há termos no dialeto cearense com função expressiva e criados a partir de associações sensoriais ou imaginativas com o seu significado, como: bafafá, estrovenga, espilicute, mamimolência, escalafobético..[7] Ademais, há termos relacionados com a cultura e a economia locais, como alfinim ou alpercata, assim como derivações de corruptelas ou arcaísmos, como bribado e bêbo ("bêbado", decorrente de briba, corruptela de "víbora") ou canelal (derivado de "canela", significando um agrupamento de pessoas da ralé), ruma e arruma (que significa monte 'de objetos, pessoas'), assim como palavras formadas por derivação regressiva ou prefixação, como "eguar" (andar a ermo, vagar) ou, pelo contrário, "estrompa" (sujeito violento) e mucheada (corruptela de mancheia, punhado). Por fim, há diversas palavras usadas em sentido diverso do original, como branca em sentido de "cachaça" e amarelo como sinônimo de "pálido", e uma série de arcaísmos do português que persistiram no dialeto cearense, principalmente rural, como malino e assoprar.[9]
Algumas marcas do dialeto cearense, mas não necessariamente exclusivas dele, são as interjeições usadas frequentemente para dar expressividade às frases, tais como: eita!, arre égua!, ave! ou ave maria!, vixe! (que vem de virgem, que é corruptela da expressão religiosa Virgem Maria) ou ixe!, oxe! (mas raramente oxente), diab'é isso, pera hóstia (corruptela de pela hóstia). Há também formas regionais de termos para serem usados como vocativo, como macho e suas variantes (má, mancho, manch, mach, macho véi), assim como cabra (ou mais comumente caba), marminino (típico do Cariri e Centro-Sul cearenses), voinha e voinho (vovô e vovó, abreviações de avó e avô).
Algumas expressões e termos típicos do dialeto cearense são:[10]
Adjetivos: abestado (bobo, desatento, otário), abirobado (louco), amancebado (relativo a quem vive com alguém sem casar-se), amarelo queimado (cor laranja, termo alternativo a este), espilicute (referente a crianças fofas, graciosas além de desinibidas), gasguito (pessoa com voz estridente ou esganiçada), marmota (estranho, desajeitado), peba (fraco, sem valor ou qualidade), biloto (botão), carão (repreensão, advertência com caráter disciplinar, lição), tabefe (tapa), malamanhado (mal vestido), malaca (malandro), fuleragem (sem futuro [+pessoas], qualidade baixa [+coisas]), buxuda (grávida), vazio (disponível / livre), cavalo batizado (ignorante, grosseiro), barata de igreja (beato), combinado (em parceria), em comunicação (telefone ocupado), tóchico (variação inculta da pronúncia de tóxico), reimoso (alimento com alta concentração de proteína e gordura animal e pessoa rabugenta), moco (que finge que não ouve), etc.
Substantivos: galalau (homem alto), vara-pau (pessoa muito magra e alta), cambito (perna muito fina), batoré (pessoa muito baixa), curubau ou canelau (gente rude, ralé), catiroba (mulher feia, desajeitada), catita (também mulher feia, desajeitada), confeito (bala), bacurau (ônibus ou qualquer serviço durante a madrugada), girador (local onde os veículos fazem a volta no trânsito, rotatória, circular), fiteiro (comércio informal), pão de bola / redondo (pão de hambúrguer), pão de caixa (pão de forma / integral), pitaco (opinião, palpite), bença (bênção), macumba (designação genérica para as religiões afro-brasileiras, como candomblé e umbanda e seus rituais: oferendas), carteira (mesa de escola ou de trabalho), classificador (pasta escolar), medecê e memecê (mínimo múltiplo comum e máximo divisor comum), dever (tarefa de casa), mercadinho (supermercado), científico (ensino médio), fim de linha (terminal de ônibus), sinal (marca no corpo ou semáforo), transmissão (registro hidráulico), gato (ligação elétrica clandestina), interior (qualquer lugar que não seja a capital), laranja cravo (tangerina), mão de milho (50 espigas de milho), carteira (tipo de pão que parece com carteira de documentos), passaporte (sanduíche com vários recheios), Roberto Carlos (pão com raspas de coco em cima), sessão bacurau (sessão ou reunião em horário tardio), xerecologista (ginecologista), etc.
Verbos e expressões verbais: segurar vela (acompanhar um casal), magote de gente (multidão), estar avexado (estar com pressa), arroxar (apertar), sentar a mãozada no peduvido (dar um tapa ao pé do ouvido), tomar umas (beber drinks), riscar a faca ( brigar ou se preparar para a briga), amancebar-se (casar), tirar uma pestana (cochilar), meter o pé na carreira (correr), dar cabimento (dar liberdade), arrodiar (dar a volta), pedir pinico (desistir), ariado (desorientado), ser cagado (ser sortudo), emburacar em algum lugar (entrar com violência e força e sem avisar, invadir), estar de bode (estar menstruada), estar liso (estar sem dinheiro), alisar (alisar, perder todo o dinheiro), estar na bagaceira (estar solteiro, estar solteiro numa festa), rebolar no mato (jogar fora, jogar no lixo), dar fé (perceber), lascar-se (ficar na pior), pastorar (vigiar), botar para moer (divertir-se), interar (por inteirar = completar), ofender (usado no sentido de fazer mal a = alimentos ou bebidas), fazer o balão (fazer retorno no trânsito), dar (ministrar aula de), enricar (ficar rico), ficar de recuperação (ficar para prova final), pescar (colar na prova, concurso, vestibular ou Enem), passar batido (não ver, notar ou sentir), procurar conversa (procurar coisas impossíveis), rechear (refogar), desonerar (aliviar o intestino ou ter diarreia), etc.
O dialeto caipira é um dialeto da língua portuguesa falado no interior do estado de São Paulo, leste e sul do Mato Grosso do Sul, sul de Minas Gerais,[1] sul de Goiás[2] e norte do Paraná e zonas rurais do sul do Rio de Janeiro,[1] no Brasil. Sua delimitação e caracterização datam de 1920, com a obra de Amadeu Amaral, O Dialeto Caipira.[3]
Índice
1 Influências
2 Características
2.1 Fonéticas
2.2 Morfossintáticas
3 Variações
4 Ver também
5 Referências
6 Bibliografia
7 Ligações externas
Influências
A língua tupi, que era a língua habitual dos bandeirantes que ocuparam as regiões onde se fala atualmente o dialeto caipira, não apresentava alguns sons habitais da língua portuguesa, como os representados pelas letras f, l e r (de "rato", por exemplo).[4] Isso influenciou o atual dialeto caipira brasileiro. Por exemplo: o dialeto caipira se caracteriza pelo r retroflexo (como em "porta", "carta") e pela substituição do dígrafo "lh" por "i", como em "palha", "milho", que se leem "paia", "mio". Nos dois casos[carece de fontes], ocorreu uma adaptação da fonética portuguesa à fonologia tupi.[5] Outro ponto em comum entre a língua tupi e o dialeto caipira é ausência de diferenciação entre singular e plural: abá, em tupi, pode significar tanto "homem" quanto "homens"[6] e o dialeto caipira usa tanto "a casa" quanto "as casa".
Características
Fonéticas
Desde a obra de Amaral, a fonética caipira é marcada por cinco principais traços distintivos:[7]
O "R" caipira: O fonema /r/, em fim de sílaba ou em posição intervocálica, assume as características formas aproximante alveolar [ɹ], retroflexo [ɻ].[8][9][10]
A rotacização do "L": a permutação, em fim de sílaba, da aproximante lateral [l] pelo fonema /r/ (mil > mir, enxoval > enxovar, claro > craro, etc.). Esse traço não é exclusivo do dialeto caipira, mas se faz presente de forma gradual ao longo de todo o país, sendo menos comum na linguagem culta. Trata-se de um fenômeno que já vinha ocorrendo na passagem do latim para o português (ex: clavu > cravo).[11]
A iotização do "LH": [ʎ] (<Falhou> [faˈjo]; <Mulher> [muˈjɛ]; <Alho> [ˈaju]; <Velho> [vɛˈju]; <Olhei> [oˈjej], etc.). Da mesma forma que a rotacização do L, esse traço existe ao longo do país todo, sendo mais uma marca social do que regional.[12]
A apócope da consoante /r/ na terminação dos verbos no infinitivo[13] (<Brincar> [bɾĩˈka]; <Olhar> [oˈja]; <Comer> [koˈme]; <Chorar>: [ʃoˈɾa]; etc.).
A transformação de proparoxítonas em paroxítonas: A apócope ou síncope em palavras proparoxítonas e a aférese em muitas palavras.
Morfossintáticas
Algumas características morfossintáticas difundidas por todo o falar brasileiro são, popularmente, vistas como características do dialeto caipira, como:
a concordância de número marcada apenas no artigo[14] (<as mulheres> [az muˈjɛ], <os homens> [u ˈzomi], <as coisas> [as ˈkojzɐ], <os primos> [us ˈpɾimu] etc.)
a nasalização do /d/ na terminação do gerúndio (nas outras terminações em ←ndo> não sofrem esse fenômeno)[15]:(<Falando> [faˈlɐ̃nu]; <Quando> [ˈkwɐ̃du]; <Dormindo> [duɹˈmĩnu]; <Lindo> [ˈlĩdu]; <Correndo> [koˈhẽnu]; <Segundo> [siˈɡũdu]; <Pondo> [ˈpõnu]; <Mundo> [ˈmũdu])
Variações
O dialeto caipira pode ser dividido em cinco subdialetos:
O primeiro, falado na região sul do estado de São Paulo (regiões do Vale do Ribeira, Sorocaba, Itapetininga e Itapeva) e Norte do estado do Paraná, caracteriza-se pela marcação do "e" gráfico sempre pronunciado como fônico. Assim, palavras como "quente" e "dente" possuem o "e" átono pronunciado como /e/ e não como /i/, comum no português padrão do Brasil. Essa é também uma característica do português falado na região de Santa Catarina, Paraná e no Rio Grande do Sul.[16]
O segundo subdialeto é das regiões do Médio Tietê (Campinas, Piracicaba, Capivari, Porto Feliz, Itu, Santa Bárbara d'Oeste, Americana, Limeira, Rio Claro, São Carlos, Araraquara e Jaú). Caracteriza-se pelos erres retroflexos inclusive em início de sílaba (como em caro, parada) e em dígrafos (frente, crente). Caracteriza-se também pela não-palatalização dos grupos "di" e "ti" fônicos e frequente iotização do LH.[17][18]
O terceiro subdialeto compreende as regiões norte, nordeste e noroeste (Ribeirão Preto, Franca, São José do Rio Preto) e oeste (Araçatuba, Presidente Prudente, Bauru, Marília, Lins) do estado de São Paulo, região sudoeste de Minas Gerais (Poços de Caldas, São Sebastião do Paraíso, Cássia (Minas Gerais), Passos (Minas Gerais), Guaxupé), além de parte do estado do Paraná e de Mato Grosso do Sul. Caracteriza-se pelos erres retroflexos só em corda vocálica (final de sílabas), tais como em "porta", "certo", "aberto" e palatização dos grupos "di" e "ti" fônicos. Nas cidades mineiras o ritmo típico do dialeto mineiro está presente.[19] [20]
Um quarto subdialeto compreende a região Mesorregião do Vale do Paraíba Paulista (Taubaté, Guaratinguetá) e Litoral Norte (São Paulo). Caracterizando-se pelos erres retroflexos só em corda vocálica (final de sílabas), tais como em "porta", "certo", "aberto" e com ausência de palatização dos grupos "di" e "ti" fônicos.[21]
O quinto grupo corresponde ao Triângulo Mineiro e a maior parte do estado de Goiás. Compreende um subfalar com pronúncia tais como o grupo três e com ritmo típico do dialeto mineiro, com elevação do tom nas sílabas tônicas, e erres retroflexos só em coda vocálica (final de sílabas), tais como em "porta", "certo", "aberto" além da palatização dos grupos "di" e "ti" fônicos. O Sul de Minas Gerais e parte da Região Sul do estado do Rio de Janeiro possuem esta mesma variação de sotaque caipira.[1]
O dialeto gaúcho (também conhecido como "dialeto guasca") é um dialeto do português falado no Rio Grande do Sul, e em parte do Paraná e de Santa Catarina. Fortemente influenciado pelo espanhol, por força da colonização espanhola, e com influência mais reservada do guarani e de outras línguas indígenas, possui diferenças léxicas e semânticas muito numerosas em relação ao português padrão - o que causa, às vezes, dificuldade de compreensão do diálogo informal entre dois gaúchos por parte de pessoas de outras regiões brasileiras, muito embora eles se façam entender perfeitamente quando falam com brasileiros de outras regiões. Na fronteira com o Uruguai e Argentina a influência castelhana se acentua, enquanto que regiões colonizadas por alemães e italianos mantém as respectivas influências. Algumas palavras de origem africana e até mesmo da língua inca também podem ser encontradas. Foi publicado um dicionário "gaúcho-brasileiro" pelo filólogo Batista Bossle, listando as expressões regionais e seus equivalentes na norma culta.
Índice
1 Fonologia
2 Vocábulos locais
3 Expressões locais
4 Interjeições típicas
5 Algumas comparações
6 Outras variações
7 Ver também
8 Referências
Fonologia
A fonologia é bastante próxima do espanhol rioplatense, sendo algumas de suas características o ritmo silábico de fala, a vocalização do "l" em "u" no final de sílabas, e a menor importância das vogais nasais, praticamente restrita à vogal "ã" e aos ditongos "ão" e "õe". Gramaticalmente, uma das características mais notáveis é o uso do pronome "tu" em vez de "você" (diferente do usado em São Paulo), mas com o verbo na terceira pessoa ("tu ama", "tu vende", "tu parte") porém não é raro ouvir a conjugação do "tu" de acordo com a norma culta. E no interior do Rio Grande do Sul, outra característica é a ausência de redução da última vogal nas palavras terminadas em "e" (por exemplo "leite", "frente"), diferentemente de outras regiões do país (e da capital Porto Alegre) que trocam o "e" por "i" ("leiti", "frenti").
Vocábulos locais
ancinho = rastilho, rastelo, ciscador, catador de folhas
apanhar = surra
aprochegar = aproximar-se, chegar perto
aspa = chifre
aspaço / aspada = chifrada
atucanado ou tuquiado = atrapalhado, cheio de problemas ou irritado
avio = isqueiro
azulzinho = guarda de trânsito
baita = grande, crescido; (usa-se em outras partes do Brasil)
bagual = excelente, bom, ótimo ou cavalo xucro
bergamota = tangerina
bochincho = festa informal
bodoque / funda = estilingue
bolicho = boteco, botequim
borracho = bêbado
branquinho = beijinho (doce), porém sem coco
brigadiano = policial da Brigada Militar (corporação equivalente à Polícia Militar)
cacetinho = pão francês
campear = procurar, ir em busca de algo
cancheiro = pessoa que tem experiência e/ou habilidade em alguma coisa
capaz = de jeito nenhum, não, de forma alguma.
carpim = meia
casamata = banco de reservas (futebol)
chapa = radiografia ou dentadura
chavear = trancar com a chave
chimia = geleia de frutas
china = à-toa, mulher
chinoca = guria que se pilcha de bota e bombacha ao invés do vestido de prenda, prenda que passou dos 30 anos.
chinaredo = bordel; onde fica o chinaredo
chinchado = cheio, satisfeito, farto
chinelagem = expressão para comportamento despojado, decadente, brega ou desajeitado, ou ainda ato ou objeto de gosto duvidoso ou popular (no sentido de brega). No Nordeste a expressão "fuleragem" tem o mesmo significado.
chinelão = pessoa que pratica a chinelagem
colorado = torcedor do Sport Club Internacional
cuecão = ceroula
cuia (para mate) = suporte para a erva-mate
cupincha = camarada, companheiro, amigo (em outras regiões essa expressão também é usada no mundo do crime, sendo sinônimo nesse caso a comparsa, capacho ou jagunço)
cusco = cachorro, cão pequeno
entrevero = mistura, desordem, confusão de pessoas, briga
faceiro = alegre, contente
fatiota = terno
folhinha = calendário
gaudério = homem do campo (gaudério não é sinônimo de gaúcho, como erroneamente dizem)
goleira = baliza (campo de futebol)
gremista = torcedor do Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense
guaipeca / guadéra = cachorro vira-lata
guaiaca = espécie de pochete de couro
guampa = chifre
guri = menino, garoto (usa-se em outras partes do Brasil)
guria = menina, moça (usa-se em outras partes do Brasil)
inticar = provocar
lancheria = lanchonete
laço = apanhar, surra
lomba = ladeira
macanudo = forte, encorpado, usado tanto para pessoas quanto para objetos
matear = tomar erva-mate
melena = cabelo
minuano = vento vindo do sul que traz as massas gélidas do Polo Sul
negrinho = brigadeiro (doce)
pandorga = papagaio, pipa
parelho = liso, homogêneo, igual
patente = vaso sanitário
pebolim = totó, fla-flu
pechada = batida (entre automóveis), trombada
pedro e paulo = dupla de policiais militares
peleia = briga
piá = guri, menino
pila = palavra regional que dá nome a moeda nacional, no caso o Real (ex: 10 pila, 25 pila - usa-se sempre no singular)
pingo ou matungo = cavalo
pousar = dormir na casa de outrem
prenda = mulher do gaúcho
quebra-molas = lombada
rabicó = gominha de cabelo
remolacha = beterraba
roleta = catraca
rótula = rotatória, redondo
sestear = dormir depois do almoço
sinaleira = semáforo
talagaço = golpe
taura = o mesmo que macanudo (valente)
tchê = interjeição que se encaixa em praticamente qualquer frase ou situação (ver "Interjeições típicas")
terneiro = bezerro
topinho = lacinho; laço
trava = freio, breque
tri = prefixo que significa "muito" (ex.: tri legal, tri bonita), ou simplesmente "legal" (ex.: é tri)
veranear = passar o verão
vivente = criatura viva, pessoa, indivíduo
xavante = torcedor do Brasil de Pelotas
xiru = índio ou caboclo. Na língua tupi quer dizer "meu companheiro"
xis = hambúrguer
Expressões locais
aguentar o tirão = suportar as consequências ou uma situação difícil
andar pelas caronas = andar mal, estar em dificuldade
arrastar a asa = enamorar-se
bem capaz = ênfase na negação.
botar os cachorros = xingar, ofender alguém
dar com os burros n'água = dar-se mal, ser mal sucedido
deitar nas cordas = fazer corpo mole
de rédeas no chão = entregue, submisso, apaixonado
de valde = de balde, em vão
de vereda = imediatamente, já
é tiro dado e bugio deitado = acertar de primeira; ter certeza do que faz
entregar as fichas = ceder, concordar
estar com o diabo no corpo = estar furioso, insuportável
faceiro que nem gurí de calça nova = muito contente, alegre
faceiro que nem gordo de camisa nova = o mesmo do item anterior
faceiro que nem égua de dois potrios = o mesmo do item anterior
frio de renguear cusco = Temperatura muito baixa
índio velho = camarada
ir aos pés = defecar
juntar os trapos = casar, viver junto
lamber a cria = mimar o filho
lagartear = ficar sem fazer nada, ao sol
matar cachorro a grito = estar sem dinheiro, estar na miséria, viver com dificuldade
me caiu os butiá dos bolso = ficar de queixo caído, espantado
meter a viola no saco = calar-se, desistir, acovardar-se
morar para fora = morar no campo (fazenda, sítio ou vila pequena)
na ponta dos cascos = pisando em ovos/ preparado, pronto - na ponta dos cascos - refere-se a cavalo que está pronto para corrida (favorito)
no mato sem cachorro = em dificuldade, em apuros
olhar de cobra choca = olhar dissimulado
se aprochegar = chegar mais próximo, se acomodar
sentar o braço = surrar, espancar
terneiro guacho = tomador de leite
tunda de laço = apanhar
Interjeições típicas
Bah! = Puxa!, Nossa!, Que coisa! - é primariamente, uma interjeição de espanto, mas pode ter outros usos, como, por exemplo, mostrar hesitação ao iniciar uma frase.
Tchê! = Expressão utilizada para enfatizar a oração. Assim como Bah pode ser utilizado para muitas coisas, como por exemplo, Tchê, ganhei na loteria!.
Mas que barbaridade! = Que coisa! - é uma interjeição que indica indignação.
Capaz? = É mesmo?, Imagina! - indica espanto e dúvida ao mesmo tempo quanto ao que a pessoa acabou de ouvir.
Bem Capaz! = Com uma entonação típica, significa "De jeito nenhum".
Que tri! = Que legal!
A la pucha! = Interjeição de surpresa que enaltece o que se escutou, como por exemplo, Mas a la pucha que pala bela!
[1][2]
Algumas comparações
Na Cidade de São Paulo: Você pegou algumas frutas?
No Rio Grande do Sul: Tu pegou algumas frutas?
Na Cidade de São Paulo: Que "moleque" rápido!
No Rio Grande do Sul: Mas que "guri" ligeiro esse!
Há diferenças também nas próprias regiões do Rio Grande do Sul, por influência da colonização:
Na cidade de Porto Alegre: Bah! Tu viu que o cara cuspiu no chão?
Na cidade de Pelotas: Bah! Tu viste que o cara pulou a cerca?
Outras variações
No Rio Grande do Sul, além deste dialeto, fala-se também o hunsriqueano riograndense, uma língua falada entre os colonos alemães e também o talian, dialeto falado pelos colonos vênetos. São considerados línguas/dialetos nativos, uma vez que, embora provenientes de idiomas exóctones (frâncico moselano, muito confundido com o alemão, e o vêneto, também confundido com o italiano), se desenvolveram no Rio Grande do Sul e região.
O mineiro ou montanhês é o dialeto do português brasileiro falado na região central do estado de Minas Gerais. Essa variante, que ocupa uma área que corresponde aproximadamente ao Quadrilátero Ferrífero, incluindo-se a fala da capital, Belo Horizonte, é um dos dialetos mais facilmente distinguíveis do português brasileiro.
Ele deve ser diferenciado do dialeto caipira, que cobre áreas do interior de São Paulo, sul de Minas Gerais, sul de Goiás e norte do Paraná.[1]
As regiões do triângulo e do sul do estado mineiro falam um dialeto que mescla os dialetos mineiro e caipira, utilizando "R" retroflexo e mantendo ritmo típico do montanhês.
Índice
1 História
2 Traços fonéticos
3 Ver também
4 Referências
História
A característica do dialeto mineiro apareceu durante o século XIX, após a decadência da mineração. O estado sofreu influência do dialeto do Rio de Janeiro no sudeste, enquanto o sul e a região do Triângulo Mineiro passaram a falar uma mescla entre o dialeto caipira (com o "R" retroflexo) e o dialeto mineiro. A região central de Minas Gerais, contudo, desenvolveu um dialeto próprio, que é o conhecido como dialeto mineiro ou montanhês. Este dialeto está também presente nas cidades de Patos de Minas, Araxá, Curvelo, Governador Valadares, Ipatinga entre outras.[carece de fontes]
Traços fonéticos
Localização do estado de Minas Gerais no Brasil.
O dialeto mineiro apresenta as seguintes particularidades fonéticas:
Ritmo fortemente acentual (as sílabas tônicas são mais longas que as átonas)[2]
Apócope das vogais curtas: parte é pronunciado partch ['pahtʃ] (com o "T" levemente sibilado).
Assimilação de vogais consecutivas: o urubu passa a ser u'rubu [u ɾu'bu].
Permutação de "E" em "I" e de "O" em "U" quando são vogais curtas: Domingo passa a ser Dumíngu [du'mĩgu].
Aférese do "e" em palavras iniciadas por "es": esporte torna-se sportch ['spɔhtʃ].
Alguns hiatos passam a ser vogais longas: fio converte-se em fíi.
Perda do /u/ final. -inho converte-se em -im (exemplo: pinho = pim).
Usa-se, no montanhês, a palatalização, ou bilabização de /d/ e /t/ para [dʒ] e [tʃ] (ou [dᶾ] e [tᶴ]), respectivamente, antes do fonema /i/. A palavra "Belo Horizonte", por exemplo, é pronunciada [bɛloɾiˈzõtʃi].
A letra "R" no início de palavras, no final das sílabas (exceto quando seguidas por vogal) e no dígrafo "rr" é pronunciada como a transição glotal surda /h/ usada no Norte e Nordeste do país, diferenciando-se do "R carioca" /x/ por ser pronunciado de forma bem mais suave (/h/ em vez de /ʁ/ ou /x/). Distingue-se ainda do sotaque carioca por causa do "s" em final de sílabas realizado como /s/, em vez do /ʃ/ típico no Rio.
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