A estilística visa ao lado estético emocional da atividade linguística, em oposição ao aspecto intelectivo e científico. Ela trata do estilo, dos diversos processos expressivos próprios para despertar o sentimento estético. Esses processos resumem-se no que chamamos figuras de linguagem.
Ela também cuida da boa organização do texto, evitando problemas com a ortografia, a concordância, a regência e outros aspectos gramaticais. Esses problemas resumem-se no que chamamos vícios de linguagem.
■ 7.1. FIGURAS DE LINGUAGEM, ESTILO OU RETÓRICA
São a forma de utilizar as palavras em sentido conotativo, figurado, com o objetivo de ser mais expressivo.
As figuras de linguagem se dividem em três grupos:
■ figuras de som: destacam o som das palavras — são elas: aliteração e onomatopeia.
■ figuras de construção ou de sintaxe: trabalham a construção da frase — são elas: anacoluto, anáfora, apóstrofe, assíndeto, elipse, hipérbato, pleonasmo, polissíndeto, silepse e zeugma.
assíndeto, elipse e zeugma - omissão
anáfora, pleonasmo e polissíndeto - repetição
hipérbato - inversão
apóstrofe - invocação
anacoluto - ruptura
silepse - concordância ideológica
■ figuras de pensamento: trabalham as palavras do ponto de vista de seus significados — são elas: antítese, antonomásia, catacrese, comparação, eufemismo, gradação, hipérbole, ironia, metáfora, metonímia, prosopopeia e sinestesia.
■ 7.1.1. Figuras de som
■ 7.1.1.1. Aliteração
É a repetição proposital de um som consonantal numa sequência linguística. O efeito serve para reforçar a ideia que se deseja transmitir:
O rato roeu a roupa real do rei de Roma.
“Um marquês de monóculo fazia montinhos de monossílabos.” (Marina Colassanti)
“Chove chuva chovendo
Que a cidade do meu bem
Está-se toda lavando.” (Oswald de Andrade)
Curiosidade: A repetição de uma mesma vogal numa frase recebe o nome de assonância.
“E bamboleando em ronda dançam bandos tontos e bambos de pirilampos.” (Guilherme de Almeida)
■ 7.1.1.2. Onomatopeia
É o uso de palavras que imitam sons ou ruídos:
O tic-tac do meu coração está forte.
O cavalo ia pelo caminho fazendo pocotó.
“Lá vem o vaqueiro pelos atalhos, tangendo as reses para os currais. Blem... blem... blem... cantam os chocalhos dos tristes bodes patriarcais.
E os guizos finos das ovelhas ternas. Dlin... dlin... dlin..., e o sino da igreja velha: Bão... bão... bão...” (Ascenio Ferreira)
Curiosidade: A aproximação de palavras de sons ou estruturas idênticas recebe o nome de paronomásia, popularmente conhecida como trocadilho:
''Conhecer as manhas e as manhãs, o sabor das massas e das maçãs'' (Almir Sater)
■ 7.1.2. Figuras de construção ou de sintaxe
■ 7.1.2.1. Anacoluto
Representa a quebra da estrutura sintática de uma frase, ruptura da ordem lógica, ficando termos isolados; caracteriza também estado de confusão mental. É o mesmo que frase quebrada:
Mulheres, impossível viver sem elas!
A infância, recordo-me dos dias de criança com saudade.
Deixe-me pensar... Será que... Não, não... É...
■ 7.1.2.2. Anáfora
É a repetição de palavras ou expressões na frase:
Ela trabalha, ela estuda, ela é mãe, ela é pai, ela é tudo!
“Depois, o areal extenso...
Depois, o oceano de pó...
Depois no horizonte imenso
Desertos, desertos só...” (Castro Alves)
Curiosidades: Existem algumas variações para essa repetição.
a) diácope: repetição de uma palavra com a intercalação de outra, ou outras.
Maria, a dedicada Maria, a sábia e generosa Maria...
b) epístrofe: repetição de uma palavra no final do período.
O homem é Deus. A vida é Deus. O universo é Deus.
c) epizeuxe: repetição seguida de uma palavra.
Raios, raios, raios triplos!
É gol, gol, gol, gol!
■ 7.1.2.3. Apóstrofe
É a invocação ou interpelação do ouvinte ou leitor a seres reais ou imaginários, presentes ou ausentes, mais conhecida como vocativo:
“Senhor Deus dos desgraçados, dizei-me Vós, Senhor Deus
Se eu deliro ou se é verdade tanto horror perante os céus.” (O Navio Negreiro, de Castro Alves)
“Afasta de mim esse cálice, pai!” (Chico Buarque e Milton Nascimento)
''Pai Nosso que estais no céu, santificado seja o vosso nome'' (oração da Igreja Católica)
■ 7.1.2.4. Assíndeto
É a ausência de conjunções entre palavras da frase ou orações do período. A intenção é indicar a lentidão no ritmo da frase. As orações aparecem justapostas ou separadas por vírgulas:
Nasci, cresci, morri.
Solange é linda, meiga, sorridente, simpática.
“Foi apanhar gravetos, trouxe dos chiqueiros das cabras uma braçada de madeira meio roída pelo cupim, arrancou touceiras de macambira, arrumou tudo para a fogueira.” (Graciliano Ramos)
■ 7.1.2.5. Elipse
É a omissão de palavras ou orações que ficam subentendidas:
Childerico é teimoso como eu. — como eu sou teimoso.
Somos felizes aqui. — nós.
Solicitei a todos que respondessem com sinceridade. — à pergunta que eu fizera.
■ 7.1.2.6. Hipérbato
Inversão sintática dos termos da orações, ou das orações no período:
De barata, Âni tem medo.
“Ouviram do Ipiranga às margens plácidas
De um povo heroico o brado retumbante.” (Osório Duque Estrada)
■ 7.1.2.7. Pleonasmo
Repetição de uma ideia com objetivo de realce:
A rosa, entreguei-a ao meu amor.
Olhei Maria com olhos sonhadores.
Curiosidade: O pleonasmo pode também representar um vício de linguagem quando, em vez de reforçar poeticamente uma frase, deixa-a repetitiva, redundante. Nesse caso chama-se pleonasmo vicioso:
Subir para cima.
Descer para baixo.
■ 7.1.2.8. Polissíndeto
Repetição de uma conjunção nas orações ou nos termos coordenados. A intenção é acelerar o ritmo da frase:
Estudou e casou e trabalhou e separou-se...
Ele não faz nada: nem chora, nem ri, nem dá uma palavra, nem gesticula!
■ 7.1.2.9. Silepse
Também chamada de concordância irregular, figurada ou ideológica, representa a combinação das palavras, não com o que vem expresso, mas com o que se entende ou o que se está implícito.
■ 7.1.2.9.1. Silepse de pessoa
Os brasileiros somos alegres.
Todos queríamos uma vida melhor.
''O Presidente da República faço saber que o Congresso Nacional decreta e eu sanciono a seguinte lei''
■ 7.1.2.9.2. Silepse de gênero
São Paulo é linda.
Vossa Senhoria parece preocupado.
■ 7.1.2.9.3. Silepse de número
A maioria chegou cedo, brincaram o dia todo.
A multidão agitada gritava contra os dirigentes, lançavam tomates contra eles.
■ 7.1.2.10. Zeugma
Omissão, marcada por vírgula, de um verbo mencionado anteriormente:
Âni comeu banana; João, melão.
As garotas estudavam matemática e os rapazes, português.
''O meu pai era paulista; meu avô, pernambucano; meu bisavô, mineiro; meu tataravô, baiano'' (Chico Buarque)
■ 7.1.3. Figuras de pensamento
■ 7.1.3.1. Antítese
Consiste na associação de palavras, expressões ou ideias em oposição.
Quando os tiranos caem, os povos se levantam.
Pedro não é bom nem mau, apenas justo.
Quem quer a paz deve se preparar para a guerra.
Curiosidade: Paradoxo ou oxímoro — são variações da antítese; consistem na aproximação de ideias opostas em apenas uma figura.
“Estou cego e vejo, arranco os olhos e vejo.” (Carlos Drummond de Andrade)
“É um contentamento descontente.” (Camões)
■ 7.1.3.2. Antonomásia
É a substituição de um nome próprio por uma qualidade ou característica que o identifique com facilidade. É o mesmo que apelido, alcunha, cognome (não confundir com codinome).
Beijo do gordo. — gordo = Jô Soares.
O poeta dos escravos emociona a todos. — poeta dos escravos = Castro Alves.
O pai da aviação não queria ver seu invento usado para o mal. — pai da aviação = Santos Dumont.
Curiosidade: Quando essa figura se refere a outros seres que não pessoas, recebe o nome de perífrase.
A cidade luz é linda. — cidade luz = Paris.
Moro na terra da garoa. — terra da garoa = São Paulo.
Os portadores do mal de lázaro já foram muito discriminados. — mal de lázaro = hanseníase.
■ 7.1.3.3. Catacrese
Metáfora tão usada que perdeu seu valor de figura e tornou-se cotidiana, não representando mais um desvio. Isso ocorre quando por falta de um termo específico, toma-se outro por empréstimo ou devido à queda do sentido original da palavra:
céu da boca
pé da cadeira
perna da mesa
dente de alho
famigerado (famoso, notável)
rival (que vivia às margens de um rio)
sabatina (prova semanal aplicada aos sábados)
impostor (aquele que cobrava impostos)
■ 7.1.3.4. Comparação
Aproximação de dois elementos realçando suas semelhanças, usando-se — para isso — conectivos: como, feito, tal qual, que nem, assim como, tanto quanto ou verbos como parecer ou assemelhar-se:
Aquela menina é delicada como uma flor.
Ela é alta que nem um poste!
Tal qual o pai, ele tornou-se professor.
Ela estava paralisada como uma estátua.
■ 7.1.3.5. Gradação
É uma sequência de ideias, em ordem crescente ou decrescente:
Esperarei por ela quanto for preciso: um dia, uma semana, um mês, um ano...
O pai olhava aquilo com tristeza, a mãe chorava, as crianças estavam aos prantos.
■ 7.1.3.6. Eufemismo
É a suavização de uma ideia, para evitar o impacto de uma mensagem cruel, negativa ou ofensiva:
Ele foi desta para melhor.
Você faltou com a verdade.
Falta-lhe inteligência para entender isso!
■ 7.1.3.7. Hipérbole
É o emprego de uma forma exagerada para dar mais expressividade à mensagem:
Estou morrendo de fome.
Já falei mais de mil vezes para você não deixar os sapatos na sala!
Ela chorou rios de lágrimas.
■ 7.1.3.8. Ironia
Forma intencional de dizer o contrário do que se quer dar a entender:
Que belo presente de aniversário esses pés de pato!
As suas notas estão ótimas: zero em tudo!
A excelente Agripina era mestra em fazer maldades.
■ 7.1.3.9. Metáfora
Apresenta uma palavra utilizada em sentido figurado, uma palavra utilizada fora de sua acepção real, em virtude de uma semelhança subentendida:
Aquela criança é uma flor.
Esse menino é um trator.
“Iracema, a virgem dos lábios de mel.” (José de Alencar)
Curiosidade: A sucessão de metáforas chama-se alegoria. Vejamos os seguintes exemplos:
A partir da metáfora “A palavra de Deus é semente” conta-se, no Novo Testamento (Lucas: VIII, 5-11), uma história sobre a semente, mas essa história na verdade se refere à palavra de Deus. Trata-se de alegoria ou parábola, porque a história desenvolve-se em relação ao termo metafórico, mas na verdade diz respeito ao termo próprio.
Conta-se uma história sobre uma certa gorduchinha que dá e leva muitas e boas; mas a gorduchinha é a bola e toda a história se refere a um jogo de futebol.
Em: ''tinhas a alma de sonhos povoada assim como no meio do caminho'', não ocorre metáfora, mas sim comparação, pois o conectivo está expresso.
■ 7.1.3.10. Metonímia
Também chamada de sinédoque, consiste na substituição de um termo por outro, quando existe proximidade semântica entre eles.
A metonímia pode ocorrer quando usamos:
■ 7.1.3.10.1. O autor pela obra
Nas horas vagas, leio Machado de Assis.
Vamos assistir a um delicioso Spielberg.
■ 7.1.3.10.2. O continente pelo conteúdo
Conseguiria comer toda a marmita.
O vinho era delicioso, tomei duas taças.
■ 7.1.3.10.3. A causa pelo efeito, e vice-versa
A falta de trabalho é a causa da desnutrição naquela comunidade.
Nossos cabelos brancos inspiram confiança.
■ 7.1.3.10.4. O lugar pelo produto feito no lugar
O Porto é o vinho mais vendido naquela loja.
Após o jantar ele fumava um Havana.
■ 7.1.3.10.5. A parte pelo todo
Chegaram as pernas mais lindas da cidade.
Vamos precisar de muitos braços para realizar o trabalho.
■ 7.1.3.10.6. A matéria pelo objeto
A porcelana chinesa é belíssima.
O jogador recebe o couro e chuta para o gol.
■ 7.1.3.10.7. A marca pelo produto
Gostaria de um pacote de bombril, por favor.
Você comprou a gilete que eu pedira?
■ 7.1.3.10.8. O concreto pelo abstrato, e vice-versa
Carlos é uma pessoa de bom coração.
O Brasil ficou sob o jugo da coroa portuguesa por muitos anos.
■ 7.1.3.10.9. O indivíduo pela espécie
O futebol brasileiro ressente a falta de novos pelés.
Ele estuda para se tornar um grande Einstein.
■ 7.1.3.10.10. O instrumento pela ideia que ele representa
João é um bom garfo.
Senna é reconhecido como o melhor volante da Fórmula 1.
■ 7.1.3.11. Prosopopeia
Também chamada de personificação ou animismo, é a atribuição de características humanas, como fala, movimento, raciocínio, a seres não humanos, imaginários ou irracionais:
O carro morreu.
O meu cãozinho sorri para mim quando chego a minha casa.
As paredes têm ouvidos.
■ 7.1.3.12. Sinestesia
Mistura de sensações percebidas por diferentes órgãos do sentido (audição, visão, tato, olfato e paladar) em uma única expressão.
Aquele choro amargo e frio me espantava.
Jocasta tinha uma voz doce e macia.
Aquela pele delicada, suave e brilhante da garota me encantava.
■ 7.2. VÍCIOS DE LINGUAGEM
Os vícios de linguagem são defeitos, problemas que surgem no emprego da língua.
Eles se classificam de acordo com a parte da gramática que ferem com os erros.
■ 7.2.1. Barbarismo
Grafia ou pronúncia de uma palavra em desacordo com a norma culta:
■ grafia: previlégio (por privilégio); ítens (por itens); excessão (por exceção).
■ pronúncia: RUbrica (por ruBRIca); PUdico (por puDIco); MISter (por misTER); gratuIto (por graTUIto).
São também considerados barbarismos os erros na flexão nominal ou verbal e no emprego inadequado de homônimos ou parônimos, e os erros quanto ao emprego excessivo de estrangeirismos.
O motorista foi incipiente. (em vez de insipiente)
Você precisa revezar a matéria antes da prova. (em vez de revisar)
Comprei os ingressos para o show de amanhã. (espetáculo)
■ 7.2.2. Solecismo
Desvio da norma em relação à sintaxe — regência, concordância ou colocação pronominal:
Fazem dois anos que não nos vemos. (por Faz dois anos.)
João é o sentinela do quartel. (por João é a sentinela.)
Eu simpatizo por você. (por Eu simpatizo com você.)
Vamos no cinema. (por Vamos ao cinema.)
Não deixe-me aqui. (por Não me deixe aqui.)
Deixe eu ver. (por Deixe-me ver.)
■ 7.2.3. Ambiguidade ou anfibologia
Emprego de frases ou expressões com falta de clareza que acarreta duplo sentido.
O menino viu o incêndio da escola — O menino viu a escola incendiada, ou estava na escola vendo um incêndio ao longe?
José disse a Pedro que encontrara seu pai na feira — Pai de quem, do Pedro, do José ou da pessoa com quem se fala?
■ 7.2.4. Cacófato
Junção de duas ou mais palavras, formando uma terceira de sentido inconveniente:
Beijou na boca dela. (surge o som “cadela”)
Eu vi ela. (surge o som “viela”)
Eu amo ela. (surge o som “moela”)
Não tenho pretensão acerca dela. (surge o som “ser cadela”)
■ 7.2.5. Pleonasmo vicioso
Repetição desnecessária, não intencional e sem valor estilístico de palavras ou expressões:
Subir pra cima.
Quero ver isso com os meus olhos.
■ 7.2.6. Neologismo
Criação desnecessária de palavras novas, por já existir palavras já equivalentes no português:
Seu bolo não está tão gostoso, mas está comível — “comível” não existe na língua portuguesa, temos para esse sentido a palavra “comestível”.
Não é considerado vício de linguagem quando a nova palavra é usada para designar um novo conceito ou para obter efeito estilístico.
■ 7.2.7. Eco
Repetição de um som numa sequência de palavras:
O tenente ficou contente quando soube da nova iminente patente.
■ 7.2.8. Arcaísmo
Utilização de palavras que já caíram em desuso:
Vossa Mercê pode me ajudar? (em vez de você)
João não quer continuar casado com Maria, por isso pedirá o desquite. (em vez de separação ou divórcio)
São considerados arcaísmo o uso da mesóclise (encontrar-te-ei), substituído por uma locução verbal formada pelo verbo auxiliar ir (vou lhe encontrar), o pretérito mais-que-perfeito simples (cantara), substituído pela forma composta (tinha cantado), e o futuro do presente simples (estudarei), substituído por uma locução verbal (vou estudar).
Existem outros vícios de linguagem: preciosismo (excesso de palavras para transmitir ideias simples, conhecido como falar difícil), gerundismo (uso excessivo e desnecessário do gerúndio), plebeísmo (gírias, calão e expressões populares que demonstram falta de instrução), queísmo (uso excessivo e desnecessário do pronome que), parequema (sílaba final e inicial iguais em palavras seguidas).
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